As histórias do Coventry em sua outra (longa) passagem pela elite inglesa
- Emmanuel do Valle

- há 1 dia
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De volta à categoria máxima do futebol inglês após 25 anos, o Coventry inicia nesta sexta-feira sua segunda passagem pela elite. A primeira durou longos 34 anos, do acesso em 1967 à queda em 2001, e foi recheada de histórias que fizeram parte do imaginário do jogo no país naquele período. Relembramos aqui os personagens, as transformações através dos tempos, os uniformes, as zebras, os gols, as glórias e, sobretudo, as incríveis escapadas do rebaixamento na última das horas, que somam nada menos que uma dezena de casos.
A REVOLUÇÃO JIMMY HILL
O termo "polímata" (ou “homem da Renascença”) é utilizado para se referir a aqueles com múltiplos talentos e habilidades para as mais variadas atividades. No futebol inglês, um caso emblemático era Jimmy Hill: jogador, treinador, líder sindical, dirigente, apresentador de TV, comentarista, presidente de clube - tudo isso ele foi. Até como bandeirinha chegou a atuar, visto que tinha também formação como árbitro. Algumas destas funções o homem que tinha como marca registrada o cavanhaque adornando o queixo pronunciado exerceu no Coventry, clube o qual revolucionou desde o dia de sua chegada como técnico, em 1961.
Aos 33 anos e de chuteiras recém-penduradas, Hill trazia ideias para repaginar a imagem do discreto clube de Midlands - que subira da quarta para a terceira divisão apenas dois anos antes - visando aproximar o torcedor, atrair a atenção da imprensa e abrir novas fontes de receita, encontrando no então presidente do clube, Derrick Robins, um entusiasta de suas propostas. Primeiro, Hill mudou o tom de azul do uniforme para o celeste, criando o apelido Sky Blues no lugar do antigo Bantams (expressão referente a algo pequeno ou leve, como "garnizés" ou "boxeador peso-galo") e até um cântico do clube, "The Sky Blue Song".
Com visão midiática, muitas vezes ia além de ser apenas o técnico: introduziu uma linha fretada especial de trens para levar a torcida aos jogos fora de casa; criou uma linha direta telefônica entre os torcedores e o clube; promoveu a venda de merchandising do Coventry pelo correio; organizou festas em que o público infanto-juvenil encontrava os jogadores para fotos e autógrafos; reformulou inteiramente o programa (revista) de jogos, entre outras inovações e contribuições que logo seriam adotadas pelas outras equipes.
Mas os progressos não ficaram só na relação clube-torcedor: o Coventry conquistou o título da terceira divisão em 1964 e o da segunda em 1967, colocando-se na categoria máxima do futebol inglês pela primeira vez desde que se juntara à Football League em 1919. Entre um acesso e o outro, o clube pagou o que era então a soma recorde do futebol mundial para um goleiro - £35 mil - ao contratar Bill Glazier, do Crystal Palace. E remodelou seu estádio de Highfield Road, construindo uma nova arquibancada, a Sky Blue Stand, no setor norte.

Aquela era, contudo, terminou abruptamente em 17 de agosto de 1967, a dois dias do início da temporada de estreia do Coventry na primeira divisão, quando Jimmy Hill anunciou que deixaria o cargo para aceitar uma proposta de chefiar a equipe de esportes da emissora privada de televisão ITV, embora permanecesse por mais algumas semanas até que o clube apontasse seu sucessor (seria o irlandês Noel Cantwell, ex-lateral do Manchester United). Mas Hill ainda retornaria a Highfield Road em abril de 1975, primeiro como diretor geral, passando logo em seguida a presidente, ficando até 1983, como veremos mais adiante.
GRANDES ESCAPADAS, PARTE I: 1968 e 1969
Em sua temporada de estreia na primeira divisão, o Coventry começou fazendo a campanha sofrível normal para um debutante: até o começo de dezembro, somava só duas vitórias em 20 jogos, chegando a atravessar um jejum de 11 partidas sem triunfar. Pouco antes do Natal, já era lanterna, posição que ocuparia durante todo o mês de janeiro. Mas em fevereiro teria início a reação que faria a equipe pular ao 19º lugar entre 22 times. Porém, com o Fulham se distanciando na lanterna e quase condenado, a disputa para se afastar da outra “vaga” de rebaixamento (na época, só os dois últimos colocados caíam) se tornaria mais acirrada.
Assim, os Sky Blues chegariam à última rodada completa da temporada, em 11 de maio de 1968, enredados num tríplice empate em 32 pontos com Stoke – que tinha um jogo a menos – e Sheffield United. No intervalo das três partidas simultâneas, o cenário não era animador: o time empatava sem gols com o Southampton fora de casa, mesmo placar do Stoke em sua visita ao Leicester. Porém, o Sheffield United, jogando em casa, havia saído na frente do Chelsea no último minuto e, com isso, escapava – e deixava para o Coventry a missão de torcer para o Stoke perder seu jogo remarcado contra o Liverpool no Victoria Ground.
Na etapa final, o placar permaneceria imaculado em Southampton e em Leicester. Mas em Bramall Lane haveria reviravolta: o Chelsea marcou duas vezes, venceu o Sheffield United de virada e rebaixou os Blades, para a eterna gratidão de Sky Blues e Potters. Não foi, contudo, nada comparado à prolongada angústia vivida pela torcida do Coventry logo na campanha seguinte. Durante boa parte de 1969-70, entre outubro e março, os Sky Blues formaram com Nottingham Forest, Leicester e Queens Park Rangers um bloco sólido e coeso nas quatro últimas posições, apenas revezando entre si, como numa dança das cadeiras.

Até que o Forest resolveu desgarrar para cima e os Rangers, para baixo. E, aparentemente, o Coventry também abrira grande vantagem para o Leicester, sobretudo graças à sequência de três boas vitórias em casa na virada de fevereiro para março. Mas havia um detalhe: avançando etapa por etapa na FA Cup até a final, os Foxes postergaram vários jogos da liga, que foram remarcados para depois da última rodada regular. O Coventry, entretanto, somou boas vitórias e, em 22 de abril, com um dramático 0 a 0 diante do Liverpool, novamente em casa, encerrou sua tabela somando 31 pontos, seis a mais que os 25 do Leicester.
Acontece que os Foxes ainda tinham nada menos que CINCO jogos por fazer e, com isso, chances de sobra para ultrapassar a pontuação do adversário. Os torcedores dos Sky Blues, por sua vez, teriam ainda quase um mês de unhas roídas, já que a tabela do Leicester iria até 17 de maio, com três jogos em casa e dois fora. Bastaria vencer os três em casa para igualar a pontuação e levar o desfecho do descenso para o critério do goal average, a divisão dos gols pró pelos contra. E assim começou: em Filbert Street, o Leicester venceu o Tottenham (1 a 0) e o Sunderland (2 a 1), perdendo na visita ao Ipswich (2 a 1) no meio dos dois triunfos.
A torcida do Coventry só foi respirar mais aliviada em 14 de maio, após o Everton arrancar o 1 a 1 na casa dos Foxes, e com um jogador a menos após a expulsão de Colin Harvey a dez minutos do fim. Três dias depois, em Old Trafford, um gol do lateral David Nish para o Leicester no primeiro minuto deixou de volta a tensão no ar. Mas o Manchester United respondeu rápido, e aos quatro minutos já havia passado à frente no placar. No fim, a vitória por 3 a 2 fez com que o Coventry se salvasse por um ponto. E o rebaixado Leicester sequer teve seu consolo na FA Cup, ao ser derrotado na final em Wembley pelo Manchester City.
A PRIMEIRA GRANDE CAMPANHA: 1970
Após quase infartar ao fim de suas duas campanhas iniciais na elite, tudo o que a torcida do Coventry queria era uma temporada 1969-70 discreta, anônima, ali pelo meio de tabela, sem emoções muito fortes, enquanto se ambientavam com a primeira divisão. O time, contudo, tinha outras ideias: mantendo a base e o técnico irlandês Noel Cantwell, os Sky Blues desta vez embicaram para cima. No fim de agosto, após sete rodadas, ocupavam o quarto lugar com quatro vitórias, dois empates e só uma derrota. No início de outubro, venceram em sequência o Arsenal e o emergente Derby County de Brian Clough, ambos fora de casa.
Mas a série de tirar o fôlego começaria no fim de novembro, estendendo-se até o início de fevereiro. Em nove jogos, o Coventry acumulou nada menos que oito vitórias, despachando Newcastle em casa (1 a 0), Tottenham em casa (3 a 2), o estreante Crystal Palace fora (3 a 0), Ipswich em casa (3 a 1), Manchester City em casa (3 a 0), Sheffield Wednesday fora (1 a 0), Arsenal em casa (2 a 0) e West Ham fora (2 a 1), voltando à quarta colocação. O único revés no período viria na visita ao atual campeão Leeds, que brigava por uma tríplice coroa.

Depois disso, o time perdeu o pique, mas ainda foi capaz de registrar ótimos resultados isolados, mesmo jogando fora de casa. Em Goodison Park, amarrou um 0 a 0 com o futuro campeão Everton. Em White Hart Lane, completou a dobradinha sobre o Tottenham (2 a 1), como já fizera antes com o Arsenal. Em Old Trafford, arrancou o 1 a 1 contra o Manchester United. No fim, ainda goleou o Nottingham Forest no City Ground (4 a 1) e derrotou o Wolverhampton no Molineux (1 a 0), terminando em sexto, a melhor posição de sua história.
O time-base dos Sky Blues fazia uma ótima mistura da experiência de jogadores como o goleiro Bill Glazier, o zagueiro George Curtis e o rodado trio goleador formado por Ernie Hunt, Neil Martin e John O'Rourke (este, trazido durante a campanha) com a juventude dos laterais Mick Coop e Chris Cattlin, do zagueiro Jeff Blockley e do ponta Willie Carr, somando-se ainda a versatilidade do norte-irlandês Dave Clements. Nomes que, graças a aquela temporada histórica, levariam o Coventry a cruzar o Canal da Mancha.
OS SKY BLUES VÃO À EUROPA
A sexta posição na liga em 1969-70 carimbou o passaporte do Coventry para o continente: valeu uma vaga na Copa das Cidades com Feiras, então em sua derradeira edição, prestes a ser substituída pela Copa da Uefa, embora já supervisionada pela entidade europeia. E de cara, os Sky Blues cumpririam uma longa viagem até a Bulgária para enfrentar seu primeiro adversário, o Trakia Plovdiv. O oponente reunia alguns nomes da seleção búlgara, frequente em Copas do Mundo naquela época, mas se revelou uma presa surpreendentemente fácil.
Na ida, em Plovdiv, no dia 16 de setembro de 1970, o Coventry desceu para o intervalo em vantagem com gols de John O'Rourke e Neil Martin. Na etapa final, os búlgaros diminuíram com Petar Radkov, mas O'Rourke marcou mais duas vezes para decretar a goleada de 4 a 1. Duas semanas depois, em Highfield Road, uma vitória protocolar por 2 a 0, gols de Brian Joicey e Jeff Blockley selou a tranquila classificação. O mesmo, no entanto, não poderia ser esperado quando o time descobriu seu próximo adversário: o Bayern de Munique.
Os bávaros ainda estavam a caminho de se tornarem uma potência no futebol da (então) Alemanha Ocidental e mandavam seus jogos não no moderno Olympiastadion, mas ainda no velho estádio Grünwalder. Porém, já contavam com a fortíssima espinha dorsal formada por Sepp Maier, Hans-Georg Schwarzenbeck, Franz Beckenbauer e Gerd Müller. Para tornar a missão do Coventry ainda mais difícil, o goleiro Bill Glazier se lesionaria antes do jogo de ida, sendo substituído por Eric McManus, que enfrentaria chuva e gramado molhado.
O resultado foi trágico: o Bayern abriu o placar logo aos quatro minutos, o Coventry ainda retrucou empatando com Ernie Hunt aos dez, mas antes dos 20 minutos os bávaros já venciam por 4 a 1. Na etapa final, marcariam mais duas vezes, encaminhando a classificação com um 6 a 1. Na volta, contudo, os Sky Blues caíram com dignidade e venceram por 2 a 1, gols de Neil Martin e John O'Rourke, com Uli Hoeness descontando para o Bayern. O passeio pelo continente foi curto, mas deixaria algumas boas memórias, no fim das contas.
O GOL "DONKEY KICK”
Ainda na temporada 1970-71, o clube protagonizaria um lance que entraria para a história do futebol inglês. Na tarde de sábado, 3 de outubro de 1970, o Coventry recebeu o então campeão Everton pela 11ª rodada da liga e abriu a contagem no primeiro tempo com Neil Martin, mas os visitantes empataram com John Hurst pouco antes do intervalo. Na volta, logo aos 12 minutos, os Sky Blues tiveram uma falta marcada bem próxima à área dos Toffees e decidiram arriscar uma jogada que já vinham ensaiando há algum tempo.
O escocês Willie Carr se aproximou para fazer a cobrança, mas, em vez disso, prendeu a bola com os dois pés e, de costas para ela, arremessou-a no ar para que o atacante Ernie Hunt emendasse um chutaço de sem-pulo com o pé direito, pegando o goleiro Andy Rankin de surpresa. As câmeras da BBC, que estavam no estádio filmando a partida para o Match Of The Day, célebre programa que exibia compactos de jogos, ajudaram a eternizar o lance, registrando-o para que o país inteiro assistisse, com a narração de John Motson.
Ernie Hunt, que viera do próprio Everton para o Coventry em 1968, ainda marcaria mais um na vitória dos Sky Blues por 3 a 1. Mas ele e Willie Carr se tornariam lembrados mesmo por aquele na cobrança de falta, apelidado de "donkey kick" (algo como "coice de burro"), que levaria o prêmio de "Gol da Temporada" de 1970-71 na votação promovida pela BBC. Mas ainda naquele ano a Fifa acabaria banindo aquele tipo de jogada, alegando que Carr, ao prender a bola com os dois pés, cometera dois toques num lance de tiro livre direto.
GRANDES ESCAPADAS, PARTE II: 1977
Depois da verdadeira montanha russa de emoções em suas três primeiras temporadas na elite, o Coventry enfim entrou numa zona de conforto na primeira metade da década de 1970, ainda que chegasse a ser comandado pelo lendário Joe Mercer, ex-Manchester City, entre 1972 e 1974. Seu substituto seria Gordon Milne, ex-médio do Liverpool, sob quem os Sky Blues voltariam a viver uma era de altos e baixos mais acentuados. Um dos momentos mais lembrados do período viria em maio de 1977, em outra campanha contra o descenso.
O time havia começado mal o primeiro mês da temporada 1976-77, mas logo se recuperara e se fixara no meio da tabela, oscilando entre o 10º e o 12º lugar. Até simplesmente parar de ganhar a partir de meados de fevereiro: foram 13 jogos seguidos sem vitória, sendo cinco empates e oito derrotas. Caindo uma posição a cada semana, os Sky Blues foram parar à beira da zona de rebaixamento, na 19ª posição, no começo de abril. Vitórias sobre Derby e Stoke e empates com Everton (fora de casa) e Liverpool foram um respiro, mas a derrota para o Manchester City no último sábado da temporada colocou de novo o time em apuros.
Com a queda do Tottenham confirmada no sábado, 14 de maio, e a do Stoke virtualmente selada na segunda, 16, faltava a definição do terceiro rebaixado, e eram três os candidatos: o estreante Bristol City, o recém-promovido Sunderland e o Coventry. Os três somavam 34 pontos e fechariam suas campanhas na terça-feira, 19 de maio. O Sunderland visitaria o Everton em Goodison Park e precisava do empate para escapar, enquanto Coventry (que tinha de vencer para não depender do outro resultado) e Bristol City (a quem também bastava a igualdade) fariam um confronto direto dramático - em teoria - em Highfield Road.
Enquanto a bola já rolava em Goodison Park, a viagem em massa dos torcedores de Bristol até Coventry havia causado um imenso congestionamento de trânsito, que levou o árbitro da partida a adiar o início do confronto até que tudo se normalizasse. O jogo começou com 15 minutos de atraso, mas os Sky Blues logo foram empilhando chances até marcarem com Tommy Hutchinson aos 15 minutos. No início da etapa final, o mesmo Hutchinson dobrou a vantagem. Um minuto depois, no entanto, Gerry Gow descontou, e os visitantes começaram a pressionar, até chegarem ao 2 a 2 com o lateral Donnie Gillies a 11 minutos do fim.
Até que, por volta dos 40 minutos do segundo tempo, um burburinho começou a se formar nos camarotes dos dirigentes do Coventry: era a notícia de que o outro jogo terminara com derrota do Sunderland por 2 a 0, resultado que salvaria Coventry E Bristol City em caso de empate no confronto direto. Imediatamente, Jimmy Hill (que retornara aos Sky Blues como diretor-geral em 1975) percebeu a oportunidade: correu até o operador do placar eletrônico do estádio e gritou para que ele colocasse a informação para que todos vissem.
A notícia correu até o gramado, e os jogadores dos dois times então pararam de buscar a vitória: pelos cinco minutos finais, o Coventry ficou encolhido em seu campo, enquanto o Bristol passou a trocar passes e recuar bolas para o goleiro, até o apito final - sem nenhum acréscimo - do árbitro Ron Challis. Depois, todos se abraçaram, celebrando juntos a dupla salvação, enquanto torcedores dos dois times invadiam o gramado para fazer o mesmo. O Sunderland chegou a encaminhar protesto formal à Football Association, mas o inquérito da entidade não encontrou nenhum motivo para culpabilizar qualquer um dos clubes.
A SEGUNDA GRANDE CAMPANHA: 1978
Assim como havia acontecido de 1968-69 para 1969-70, o Coventry emendaria uma salvação dramática do rebaixamento com uma das melhores campanhas de sua história na elite. Isso com praticamente o mesmo elenco e o mesmo técnico Gordon Milne. Jogando um futebol ofensivo e de muitos gols, o time oscilou um pouco no início, mas logo foi vencendo jogos e subindo na tabela. Bateu Derby (3 a 1), Manchester City (4 a 2) e West Ham (1 a 0) em casa e Newcastle (2 a 1), Chelsea (2 a 1) e seus rivais de Midlands Leicester (2 a 1) e Wolverhampton (3 a 1) fora de casa. Em 19 de novembro, recebeu e goleou o Queens Park Rangers (4 a 1), alcançando a vice-liderança em pontos ao lado do Everton, só atrás do Nottingham Forest.
O jogo seguinte, dali a uma semana, era justamente contra os Toffees em Goodison Park. O Everton, que também jogava para frente, goleou por 6 a 0, resultado que desnorteou os Sky Blues por um tempo. Mas antes do fim do ano eles voltariam a vencer protagonizando um frenético 5 a 4 no Norwich e um categórico 3 a 0 no Manchester United, ambos em Highfield Road, fechando o ano de 1977 na sexta colocação. Os gols em profusão continuariam após a virada para 1978: logo em 14 de janeiro, o time surrou o Chelsea por 5 a 1 em casa. E após bater o poderoso Liverpool por 1 a 0, arrancaria um 3 a 3 fora com o West Bromwich.

Em março, o Coventry registraria três boas vitórias em casa sobre rivais regionais, goleando o Birmingham e o Wolverhampton por 4 a 0 e batendo o Leicester por 1 a 0. Após a vitória sobre os Wolves, no dia 28 daquele mês, o time chegaria à quinta colocação, ficando dentro da zona de classificação para a Copa da Uefa. Infelizmente para a torcida, o time empacou nas últimas rodadas: dos oito jogos finais, só venceu um, a revanche contra o Everton, que saiu de Highfield Road derrotado por 3 a 2 e com suas chances de título abaladas. Assim, o Coventry caiu uma posição e terminou em sétimo, a meros dois pontos de voltar à Europa.
Mesmo assim, aquela equipe ficou marcada na história do clube, assim como seu uniforme feito pela Admiral, fornecedora de material esportivo em alta na época. Capitaneado pelo experiente galês Terry Yorath (ex-Leeds) e mantendo o lateral Mick Coop como veterano dos primeiros anos na elite, o time reunia um punhado de escoceses, como o goleiro Jim Blyth (que seria convocado logo em seguida para a Copa do Mundo da Argentina), o lateral Bobby MacDonald, o sólido zagueiro Jim Holton (ex-Manchester United), o meia Tommy Hutchinson e o atacante Ian Wallace, que formou dupla prolífica com Mick Ferguson. Juntos, marcaram 37 dos 75 gols do Coventry, o segundo melhor ataque do campeonato.
A CAMISA "CHOCOLATE"
Por falar no uniforme feito pela Admiral, o Coventry estrearia na temporada seguinte, 1978-79, um dos mais controversos já feitos na Inglaterra: o número dois todo na cor marrom, que ficaria conhecido como "chocolate kit", mantendo do principal os detalhes da gola em V e das listras verticais brancas que iam das mangas até as barras do calção. A estreia viria com vitória de 2 a 0 sobre o Derby no Baseball Ground, em 2 de setembro de 1978, e o uniforme seria mantido como o reserva por três temporadas, até ser substituído em meados de 1981.
Frequentemente mencionado em inúmeras enquetes na imprensa e na internet como "o pior uniforme de todos os tempos" do futebol inglês, ele se tornaria, no entanto, objeto de culto entre os torcedores do Coventry a ponto de o próprio clube reeditá-lo duas vezes: em 2009, numa versão limitada para comemorar os 125 anos de fundação do clube, e como quarto uniforme recentemente na temporada 2025-26, que terminou com o retorno à elite.

O gosto pela controvérsia, no entanto, não terminaria com a aposentadoria do kit marrom. Com efeito, a polêmica seria transferida para o uniforme principal a partir da temporada 1981-82, quando o Coventry acertou contrato de patrocínio com a empresa automobilística franco-britânica Talbot (que tinha fábrica na cidade) e estampou o logotipo da montadora, um T gigante e estilizado, por todo o uniforme, pegando a camisa e o calção.
A celeuma maior foi com a BBC, que, como emissora pública, não permitia então a exibição de patrocínios nem nas camisas dos times dos jogos que transmitia, forçando os Sky Blues a atuarem com camisa "alternativa" nas partidas da TV. O novo uniforme controverso duraria um pouco menos que o marrom: apenas duas temporadas (1981-82 e 1982-83). Mas, pelo mesmo design estar presente tanto no número um (azul) quanto no número dois (vermelho), seria utilizado com mais frequência. Até o Coventry adotar outro menos chamativo.
O ESTÁDIO "ALL-SEATER"
O Coventry viveu mais uma escapada em sua partida derradeira na temporada 1980-81, a última na Inglaterra em que a vitória valeu dois pontos. Mas esta foi bem menos dramática: bastava um empate (fora contra o Nottingham Forest) ou então, em caso de derrota, que um dos cinco times logo abaixo dos Sky Blues não vencessem. O 1 a 1 no City Ground na tarde de 2 de maio resolveu a questão. Contudo, se não foi a última campanha do clube na elite, seria a derradeira de Highfield Road tal como a primeira divisão o conhecera.
A ideia, como sempre, partiu de Jimmy Hill, que se tornara presidente do clube em 1976: "É mais difícil ser um hooligan quando se está sentado", foi seu argumento para a instalação de cadeiras em todos os setores do estádio, acabando com os antigos terraces, espécie de geral onde os torcedores assistiam aos jogos de pé. Não era a primeira experiência no Reino Unido: em 1978, o Aberdeen escocês se tornou o pioneiro ao reformar inteiramente, e com sucesso, seu estádio de Pittodrie. Mas na Inglaterra era novidade. E dividia opiniões.
Sobretudo porque, no pacote, vinham o aumento do preço dos ingressos e a necessidade de comprá-los com antecedência, não mais direto nas bilheterias no dia das partidas, o que, dentro de um cenário em que a Inglaterra (e a cidade de Coventry em particular) se via mergulhada em grave recessão econômica e os estádios se esvaziavam a cada ano, poderia afastar mais ainda a classe operária, tradicional frequentadora - ainda que um novo público, com maior renda e qualificação, fosse atraído pela nova estrutura, mais segura e confortável.

O Coventry, de fato, viu sua média de público declinar assustadoramente, rendendo logo as críticas de "perda de atmosfera" nos jogos em Highfield Road. Por outro lado, a receita com ingressos quase dobrou. E como as entradas para os torcedores de times visitantes também foram sensivelmente reajustadas, esta parcela do público encolheu, reduzindo, com isso, os casos de violência entre torcidas - ou seja, ao expulsar os torcedores de fora, a elitização do estádio ajudou a controlar o hooliganismo. Não sem protestos dos adversários, contudo.
No fim, a experiência iniciada em setembro de 1981 duraria duas temporadas: com a saída de Jimmy Hill da presidência, as cadeiras foram retiradas de uma parte dos setores atrás dos gols. Mas, com seus aspectos positivos e negativos, mostraria-se à frente de seu tempo: após a tragédia de Hillsborough, em 1989, o Relatório Taylor recomendaria exatamente a transformação de todos os estádios ingleses em "all-seater". E tudo o que veio no bojo da mudança em Highfield Road vem sendo presenciado no resto do país desde então.
O velho estádio, porém, não resistiria ao tempo: construído em 1899, atravessaria o século seguinte, mas acabaria fechado ao fim da temporada 2004-05 e demolido no início de 2006, quando o clube já havia se mudado para a nova Ricoh Arena (atual CBS Arena). E Jimmy Hill, apesar de algumas decisões controversas em sua segunda passagem, continuou celebrado: na nova casa há um jardim e uma estátua, erguida com dinheiro dos torcedores, em tributo ao ex-técnico, diretor e presidente do Coventry, falecido aos 87 anos em dezembro de 2015.
A PRIMEIRA GOLEADA NO LIVERPOOL (E A GRANDE ESCAPADA DE 1984)
O Coventry ensaiou uma grande campanha na primeira metade da temporada 1983-84, mesmo após muitas baixas. Além de alguns talentos promissores, também deixaram o clube o técnico Dave Sexton e o presidente Jimmy Hill. O ex-atacante Bobby Gould chegou para o comando e trouxe, entre outros, um certo Sam Allardyce para a zaga e um jovem lateral chamado Stuart Pearce. E no fim de outubro, o time engrenou o que viria a ser uma série de nove jogos sem derrota. No sétimo desses jogos, recebeu o poderoso Liverpool.
Naquela temporada, os Reds de Joe Fagan chegariam ao tri inglês e ao tetra da Copa da Liga seguidos, além do quarto título da Copa dos Campeões. Mas naquela tarde de sábado, 10 de dezembro de 1983, os Dalglish, Souness e Rush acabaram atropelados pelo baixinho Terry Gibson, ex-Tottenham, autor de um hat-trick na goleada de 4 a 0 que fez os Sky Blues pularem para a quarta posição. O segredo daquele Coventry arrasador? Aulas de dança contemporânea com a bailarina Stella Mae, do English Dance Theatre. Ideia de Bobby Gould para que os jogadores coordenassem melhor seus movimentos.
Após aquela goleada, porém, o bailado dos Sky Blues começou a errar o passo. O próximo triunfo só viria dali a cinco jogos, em 2 de janeiro, contra o Sunderland. Depois disso, só em abril: o time passaria 13 jogos sem vencer, com dez derrotas. Vitórias em casa sobre Wolves e Nottingham Forest deram um respiro, mas logo a seguir vieram três catastróficas derrotas: 4 a 1 para o Manchester United, 8 a 2 para o Southampton e 5 a 0 na vingança do Liverpool. E o Coventry chegou ao seu último jogo às portas da zona de rebaixamento.
A briga mais direta naquele 12 de maio de 1984 era com Birmingham e Stoke, que tratou logo de disparar um 4 a 0 sobre o lanterna Wolverhampton e se salvou. O Birmingham ia empatando em 0 a 0 com o Southampton em casa, enquanto o Coventry recebia o Norwich e via seu drama aumentar ao sair atrás com gol de pênalti de John Deehan. Ainda na etapa inicial, porém, o veterano goleador Mick Ferguson empatou (o ídolo dos Sky Blues nos anos 1970 havia sido trazido de volta a Highfield Road emprestado pelo... Birmingham!).
Mas algo ainda mais incrível aconteceria no segundo tempo, aos 25 minutos: pressionando pela virada, o Coventry teve um escanteio a seu favor. O ponta Dave Bennett bateu fechado, e a bola entrou direto, surpreendendo o goleiro Chris Woods. O gol da virada e da salvação era olímpico. Mas o drama ainda não havia terminado: nos minutos finais, uma cabeçada de Robert Rosario que poderia ter empatado o jogo e decretado a queda do Coventry acertou o travessão. Mas a combinação dos resultados acabaria rebaixando o Birmingham.
GRANDES ESCAPADAS, PARTE III: 1985 e 1986
A escapada de 1984 seria a primeira de três consecutivas do Coventry naqueles meados de anos 1980. Mas a mais surreal de todas seria a seguinte, em 1985, que pareceu improvável até o fim. Mas aconteceu às custas do Norwich, que terminara o mês de março com o troféu da Copa da Liga debaixo do braço e ocupando um aparentemente confortável 13º lugar no campeonato. Os Sky Blues, por sua vez, haviam virado o ano na penúltima colocação, acima apenas de um Stoke que fazia uma das piores campanhas da história da primeira divisão.
A má campanha levou à demissão do técnico Bobby Gould, substituído por Don Mackay, e o Coventry ensaiou uma reação na segunda metade da temporada. Já o Norwich embarcou na letargia e foi perdendo gordura. Mas em 14 de maio, ao completar sua tabela vencendo o Chelsea em Stamford Bridge por 2 a 1, parecia são e salvo, com 49 pontos, assim como o West Ham, que goleou o Stoke - já condenado, assim como o Sunderland - por 5 a 1 e chegou aos 48. No mesmo dia, os Sky Blues só conseguiram arrancar um 0 a 0 em Ipswich e, com magros 41 pontos ganhos, a sete de sair da zona, parecia que enfim desceriam.
Só que, a exemplo do que acontecera com o Leicester em 1969, o Coventry ainda teria três jogos por fazer. O pequeno problema era que teria de vencer todos os três para se salvar. O primeiro deles era fora de casa contra o Stoke. E vamos combinar: se não vencesse aquele Stoke, não merecia mesmo ficar na elite. Mas o Coventry venceu. Por um magro 1 a 0, gol de pênalti de Stuart Pearce, mas venceu - no mesmo dia, o West Ham bateu o Ipswich fora de casa também por 1 a 0 e escapou. Em seguida, era a vez de receber o Luton, também derrotado por 1 a 0, mas não sem drama: o gol de Brian Kilcline saiu a seis minutos do fim.

Faltava um jogo, uma vitória. E o adversário seria ninguém menos que um histórico Everton, que naquela temporada andou muito perto da tríplice coroa, vencendo a liga com folga, a Recopa Europeia e perdendo a final da FA Cup só na prorrogação. Mas, para a sorte dos Sky Blues, era um Everton que vinha 1) desgastado pela exaustiva temporada; 2) mutilado por lesões (eram sete os desfalques); e 3) numa ressaca monstro após os títulos doméstico e continental. Assim, não foi missão impossível. Pelo contrário: o Coventry goleou por 4 a 1 e escapou de novo, terminando um ponto à frente do inacreditavelmente rebaixado Norwich.
Já em 1985-86, ironicamente, a salvação viria após a demissão de Don Mackay a três jogos do fim, substituído por John Sillett (ex-lateral do clube nos anos 1960) e seu auxiliar George Curtis. O Coventry parecia caminhar para uma campanha discreta, mas um par de horríveis sequências de resultados (primeiro, entre dezembro e janeiro e, depois, entre março e abril) atraíram como um ímã o time para a briga contra o descenso. Antes da rodada de sábado, 19 de abril, os Sky Blues já eram os primeiros acima da zona da degola, um ponto à frente do Oxford, um atrás do Ipswich (que tinha um jogo a menos) e dois atrás do Leicester.
Na estreia de Sillett, o Coventry bateu o Luton por 1 a 0 e respirou, subindo duas posições. Mas tudo embolou de novo quando o time perdeu na visita ao West Ham, e, dali a dois dias, o Ipswich venceu o duelo direto com o Oxford, que logo em seguida se reabilitou batendo um Everton postulante ao título. Ainda assim, os Sky Blues só dependiam de si: era vencer o Queens Park Rangers em casa na última rodada e escapar. Os Rangers, porém, saíram na frente com John Byrne logo no início. Mas dois heróis de outras escapadas, Brian Kilcline e Dave Bennett, viraram para 2 a 1 ainda no primeiro tempo. No fim, o Ipswich desceu.
STEVE OGRIZOVIC, UM GOLEIRO DE GRANDES FEITOS
Personagem de muitas das escapadas, bem como dos maiores feitos do Coventry na última década de meia do século, o goleiro Steve Ogrizovic chegou ao clube em 1984 para com o tempo se tornar o jogador a mais vezes atuar pelo clube na história. Filho de um iugoslavo feito prisioneiro na Itália durante a Segunda Guerra Mundial e que se asilou na Inglaterra, o arqueiro de 1,93 metro chegou a servir como cadete e oficial de polícia antes de abraçar a carreira profissional no futebol, a qual chegou a dividir por um tempo com o críquete. Por ironia, substituiria um iugoslavo nato, Radojko "Raddy" Avramović, no gol dos Sky Blues.
Revelado pelo Chesterfield em 1977, transferiu-se para o Liverpool no mesmo ano, mas fez apenas quatro partidas em cinco temporadas em Anfield. De lá, foi para o Shrewsbury Town, antes de aportar no Coventry, permanecendo por nada menos que 16 anos e acumulando recordes: foram 601 partidas oficiais de competição, sendo 507 pela liga, além de 209 jogos consecutivos no gol dos Sky Blues pelo Campeonato Inglês entre 25 de agosto de 1984 e 9 de setembro de 1989. Ágil, apesar da estatura, e pegador de pênaltis, chegou a marcar um gol chutando da própria área contra o Sheffield Wednesday, em outubro de 1986.

"Oggy", como foi apelidado carinhosamente pela torcida, nunca defendeu a seleção da Inglaterra, mas atuou pelo combinado da Football League contra outro do Resto do Mundo (que incluía Maradona e Platini) num amistoso em Wembley, em agosto de 1987. Três meses antes, no mesmo palco, levantara seu maior título com o clube, a FA Cup. Dono da posição nos Sky Blues até 1998, Ogrizovic fez seu último jogo em maio de 2000, aos 42 anos de idade. E desde então já exerceu inúmeros outros cargos dentro do clube.
O TÍTULO DA FA CUP
Após três temporadas seguidas escapando do rebaixamento no último jogo, o Coventry cumpriu campanha bem mais estável na liga em 1986-87 e terminou num bom décimo lugar entre 22 clubes. Mas a cereja do bolo da primeira temporada completa com o técnico John Sillett no comando seria a FA Cup. O clube nunca tivera exatamente uma tradição copeira: no torneio mais antigo do país, chegara no máximo às quartas de final em quatro ocasiões (1910, 1963, 1973 e 1982), enquanto na Copa da Liga alcançara as semifinais em 1981.
Contudo, daquela vez o time resolveu aproveitar o bom momento na liga - havia vencido o Newcastle fora por 2 a 1 e estava num confortável oitavo lugar com um jogo a menos - para transferí-lo à copa. De saída fez 3 a 0 no Bolton, então na terceira divisão, no que seria seu único jogo em Highfield Road na campanha. Na etapa seguinte, iria a Old Trafford enfrentar o Manchester United cujo técnico Alex Ferguson estava há menos de três meses no cargo. E um gol meio aos trambolhões de Keith Houchen deu a vitória aos Sky Blues por 1 a 0.
Nas oitavas de final, o Stoke, então na segunda divisão, também foi derrotado pelo placar mínimo no Victoria Ground. E nas quartas, o Coventry de novo pegou um time cumprindo campanha de meio de tabela na elite, o Sheffield Wednesday, arrancando um grande triunfo por 3 a 1 em Hillsborough. Quase um mês depois, em 12 de abril, os Sky Blues voltariam ao estádio para a semifinal em campo neutro, tendo como adversário o Leeds, da segunda divisão. Era a primeira vez que o Coventry alcançava aquela fase na competição, e seria um confronto épico, vencido na prorrogação por 3 a 2 após muitas reviravoltas no placar.
Na final, em Wembley, o Tottenham era favorito absoluto, primeiro pelo elenco estelar que reunia, repleto de jogadores de seleção, e depois por uma escrita: até ali, havia jogado sete finais da FA Cup e nunca havia perdido. Quando o centroavante Clive Allen, em forma sensacional naquela temporada, abriu o placar aos dois minutos, os prognósticos pareciam estar se confirmando. O Coventry empatou aos nove com Dave Bennett, mas pouco antes do intervalo, aos 41 minutos, o zagueiro Gary Mabbutt recolocou os Spurs na frente.

Na etapa final, quando se imaginava que o Tottenham definiria a vitória, o Coventry chegou ao empate aos 18 minutos: Bennett cruzou da direita e Houchen mergulhou se esticando num "peixinho" para mandar às redes. Veio a prorrogação e nela, pela primeira vez, os Sky Blues passariam à frente no placar logo aos seis minutos: o meia Lloyd McGrath desceu pela direita e cruzou. A bola desviou no joelho de Mabbutt (autor do segundo gol dos Spurs) e encobriu Ray Clemence no gol, fazendo 3 a 2 para o Coventry. Foi o gol do título.
Foi uma das maiores surpresas numa final da competição. E aquela seria a maior conquista do Coventry em sua história, consagrando nomes como o goleiro Steve Ogrizovic, o versátil David Phillips (capaz de atuar no meio ou nas laterais), o capitão Brian Kilcline (o cabeludo fã de heavy metal que era o xerife da defesa), seu companheiro de zaga Trevor Peake, o ponta Dave Bennett e o rodado centroavante Cyrille Regis, ex-West Bromwich. Mas, para o azar dos Sky Blues, a conquista não os levou à Recopa europeia como deveria, já que na época ainda vigorava o banimento dos clubes ingleses pela Uefa após a tragédia de Heysel.
A ZEBRAÇA CONTRA O SUTTON NA FA CUP
Um ano e meio após o título, o Coventry voltaria a chocar o futebol inglês na FA Cup, mas pelo motivo inverso. Em 7 de janeiro de 1989, o time estrearia naquela edição do tradicional torneio visitando o modesto Sutton United, da Conference, categoria semiprofissional da non-league equivalente à quinta divisão inglesa. Mesmo jogando fora de casa, era o favorito na partida disputada no acanhado estádio de Gander Green Lane, que foi expandido para receber um público de oito mil torcedores, dois mil a mais que a capacidade habitual.
Em quinto lugar na primeira divisão e vindos de golear o Sheffield Wednesday por 5 a 0 na liga, os Sky Blues repetiam sete jogadores (mais o atacante Keith Houchen, que entrou no segundo tempo) do time vitorioso na final de maio de 1987 em Wembley. Mas quem saiu na frente, pouco antes do intervalo, foi o Sutton, com o lateral e capitão Tony Rains no rebote de um escanteio. Na etapa final, o Coventry empatou num contra-ataque com David Phillips aos sete minutos. Mas aos 14, após um córner batido curto e um centro para a área, o meia Matthew Hanlan escorou para as redes, colocando o time da casa de novo na frente.
O Coventry passou o resto do segundo tempo empilhando chances perdidas inacreditáveis, como uma em que a bola bateu no travessão e na trave no mesmo lance. No fim, não houve jeito: com a derrota por 2 a 1, o clube foi vítima de uma das maiores zebras da história do torneio, numa rara ocasião em que um time da non-league eliminou um da elite. De lá para cá, o jogo passou a figurar em toda lista de resultados mais chocantes do futebol inglês em todos os tempos. O Sutton cairia logo na fase seguinte, levando de 8 a 0 do Norwich.
A TERCEIRA GRANDE CAMPANHA: 1989
Apesar do tropeço vexatório na FA Cup, a temporada 1988-89 ficou marcada como bastante positiva na história do clube, que obteve uma de suas melhores colocações. Já de saída, as quatro vitórias nos seis primeiros jogos alçaram os Sky Blues ao terceiro posto em meados de outubro. Entre subidas e descidas, o time ainda retornaria a aquela posição na primeira quinzena de dezembro e, mais tarde, de meados de janeiro até o início de fevereiro, quando engrenou mais uma sequência de seis partidas com quatro triunfos pelo campeonato.
O Coventry não conseguiria sustentar posição tão alta até o fim, mas sempre se manteve ao menos entre os oito primeiros colocados. Terminaria em sétimo entre 20 equipes, igualando a colocação de 1977-78, e colecionando alguns ótimos resultados: derrotou o Manchester United em casa e fora (ambas por 1 a 0), bateu o futuro campeão Arsenal (1 a 0) e o rival Aston Villa (2 a 1) em Highfield Road, atropelou o Newcastle em pleno St. James' Park (3 a 0) e o Sheffield Wednesday em casa (5 a 0) e arrancou um 0 a 0 com o Liverpool em Anfield.

GRANDES ESCAPADAS, PARTE IV: 1992
O Coventry começou a temporada 1991-92, a última antes do advento da Premier League, como uma sensação. Tendo Terry Butcher, ex-zagueiro da seleção, como jogador-técnico, a equipe venceu seis dos primeiros 12 jogos - incluindo um 2 a 1 fora de casa sobre o Arsenal, atual campeão - e ocupava a quinta posição no início de outubro. Mas parou por aí. Nos 30 jogos seguintes até o fim da campanha, só venceria mais cinco, sofrendo 16 derrotas. Bem no meio da temporada, em janeiro, Butcher foi demitido e em seu lugar entrou Don Howe.
O veterano técnico, notório por seu perfil mais tático e defensivo, chegou a acumular cinco empates consecutivos (incluindo quatro por 0 a 0) entre fevereiro e março, mas vencer, que era bom, só de vez em quando. Em 4 de abril, ao perder em casa para o Arsenal por 1 a 0, o Coventry já havia despencado para o 19º lugar, primeira posição acima da zona da degola. E logo o Luton, 20º colocado, começaria a se aproximar perigosamente.
Em 25 de abril, no penúltimo sábado da temporada, os Sky Blues enfim voltaram a vencer, batendo o West Ham em casa por 1 a 0, resultado que selou a queda dos Hammers. No mesmo dia, o Notts County perdeu do Manchester City e também disse adeus à primeira divisão. Mas o Luton bateu o Aston Villa e seguiu brincando de gato e rato. A definição do últmo condenado ficaria para 2 de maio, quando ambos jogariam fora de casa, numa tabela quase cruzada: o Coventry pegaria o rival Aston Villa e o Luton enfrentaria o Notts County.

Cyrille Regis, um dos campeões da FA Cup de 1987, decretou a lei do ex marcando para o Villa no primeiro minuto. Aos 30, Dwight Yorke ampliou. Naquele momento, o Luton vencia por 1 a 0 e, pelos resultados parciais, o Coventry estaria rebaixado. Mas aos 34, o atacante Rob Matthews empatou para os Magpies, e os Sky Blues começaram a respirar. Na etapa final, o mesmo Matthews virou o jogo, fazendo o Notts County arrastar o Luton consigo para o descenso e salvar o Coventry mesmo com a derrota por 2 a 0 no Villa Park. Com mais sorte que juízo, os Sky Blues estavam garantidos na primeira temporada da nova liga.
OUTRA GOLEADA NO LIVERPOOL
Quase exatos nove anos depois de golear o Liverpool por 4 a 0, o Coventry voltou a pregar uma peça nos Reds em Highfield Road em jogo válido pela temporada inaugural da Premier League e disputado em 19 de dezembro de 1992. Curiosamente, como na vitória anterior, os Sky Blues eram dirigidos por Bobby Gould, enquanto Graeme Souness, que atuou pelo time de Merseyside na partida de 1983, era agora seu treinador. O desfalcado Coventry não tinha o goleiro Steve Ogrizovic (substituído pelo estreante Jonathan Gould, filho do técnico) e o atacante zimbabuano Peter Ndlovu, mas atropelou os visitantes sem maiores problemas.
Na etapa inicial, o Coventry só marcou uma vez, de pênalti com o lateral Brian Borrows. Mas após o intervalo a equipe deslancharia: o mesmo Borrows ampliou e o atacante escocês Kevin Gallacher anotou o terceiro. Jamie Redknapp descontou de falta para os Reds, mas logo depois foi expulso ao levar o segundo amarelo. No fim, o centroavante Mick Quinn anotou duas vezes para fechar a goleada em 5 a 1, encerrando um incrível jejum de 11 jogos sem vitória dos Sky Blues. E, de quebra, impondo ao Liverpool sua pior derrota desde dezembro de 1976, quando perdeu pelo mesmo placar numa visita ao Aston Villa.

DION DUBLIN, O GOLEADOR
Centroavante esguio (1,88 metro de altura), rápido e esperto, Dion Dublin despontou num time do Cambridge United que quase ascendeu à divisão de elite em 1992. Comprado em seguida pelo Manchester United por £1 milhão, marcou o gol da primeira vitória do clube na nova Premier League, mas quebrou a perna e ficou seis meses de fora. Quando voltou, os Red Devils haviam contratado o francês Eric Cantona. Sem espaço, foi vendido ao Coventry em setembro de 1994 por £2 milhões, soma recorde paga pelos Sky Blues até então.
Seu impacto foi imediato: em quatro anos no clube, anotou 72 gols em 161 jogos oficiais de competição, sendo goleador do time por quatro temporadas seguidas. Na temporada 1997-98, sua última completa, sagrou-se artilheiro da Premier League (18 gols), ao lado de Chris Sutton, do Blackburn, e Michael Owen, do Liverpool. Também igualou o recorde de gols pelo Coventry numa temporada, alcançando os 23 marcados por Ian Wallace em 1977-78. Ainda em 1998, atuou quatro vezes pela Inglaterra, três delas como jogador dos Sky Blues, mas acabou de fora da lista de convocados para a Copa do Mundo da França.
Um de seus gols mais lembrados foi anotado naquela temporada, contra o Newcastle em 8 de novembro de 1997, aproveitando um descuido do goleiro Shay Given numa reposição de bola e tocando para a meta vazia. Em novembro de 1998, ele seria vendido ao Aston Villa por £5,75 milhões. Deixava Highfield Road como o maior artilheiro do Coventry na história do clube na elite, tanto contando somente a liga (60 gols) quanto em todas as competições (72 gols), marcas que ainda mantém, assim como a idolatria, três décadas depois.

GRANDES ESCAPADAS, PARTE V: 1996 e 1997
O Coventry começou muito mal a temporada 1995-96. Dos primeiros 16 jogos, venceu só um: 2 a 1 no Manchester City na segunda rodada, no fim de agosto. Foram mais de três meses sem triunfar até o time surpreender aplicando um acachapante 5 a 0 no Blackburn, atual campeão, em 9 de dezembro. Ainda antes da virada do ano, os Sky Blues venceram Everton e Bolton, parecendo encaminhar a reação. Mas 1996 chegou mostrando o contrário: só mais uma vitória (1 a 0 no Chelsea em casa) nos 12 jogos de janeiro, fevereiro e março.
O mês de abril, contudo, começou com vitória sobre o Liverpool (1 a 0). E, apesar da perda do zagueiro David Busst, que no jogo seguinte (derrota de 1 a 0 para o Manchester United em Old Trafford) sofreria a fratura exposta de tíbia e fíbula da perna direita que encerraria sua carreira, a equipe somaria sete pontos nos três próximos jogos, pulando fora da zona de descenso antes da última rodada. Na manhã daquele decisivo 5 de maio de 1996, os Sky Blues tinham os mesmos 37 pontos de Southampton e Manchester City, e só um cairia.
Os três jogavam em casa: o Coventry contra o Leeds, o Southampton contra o Wimbledon e o Manchester City contra o Liverpool. Dono do pior saldo entre os ameaçados, o Man City foi logo se explicando: abriu 2 a 0, enquanto os outros dois jogos permaneciam com placar em branco. Mas na etapa final, cedeu o 2 a 2. Até que, nos minutos finais, espalhou-se feito rastilho de pólvora pelo estádio de Maine Road a notícia de que o Wimbledon havia aberto a contagem, o que tornaria aquele empate suficiente para salvar os Citizens da degola.

Assim, orientado pelo banco de reservas, o time do Manchester City começou a fazer cera e gastar tempo, certo de que estava são e salvo na primeira divisão. Acontece que a "notícia" era boato. E quando os jogadores souberam, por meio do atacante Niall Quinn - que saíra lesionado e ouvira o resultado real pela BBC na enfermaria do estádio - era tarde demais. Com o empate sem gols perdurando até o apito final em Southampton e em Coventry, o Manchester City acabou rebaixado. Restou aos Sky Blues agradecerem à sorte.
Como se o drama vivenciado em 1995-96 não tivesse sido o suficiente, a campanha seguinte espelhou a anterior de modo inacreditável em vários pontos. De novo o Coventry somou só uma vitória até o início de dezembro. De novo ensaiou uma reação a partir do meio daquele mês ao vencer mais alguns jogos até o fim do ano. De novo esse suposto renascimento se esvaiu após o réveillon, com o time vencendo só mais uma vez até março. E de novo, o time vivenciaria mais uma reação em abril, colhendo resultados improváveis para se salvar.
Desta vez, no entanto, a queda parecia iminente: a arrancada de abril, marcada pela vitória épica sobre o Liverpool em Anfield por 2 a 1, selada com gol de Dion Dublin, e pelos 3 a 1 no Chelsea em Highfield Road, parecia ter sido jogada no lixo com a derrota em casa para o Derby na penúltima rodada, em 3 de maio. Dali a oito dias viria o desfecho: em penúltimo lugar, o time precisava bater o Tottenham e torcer para o Sunderland perder do Wimbledon e para o Middlesbrough não vencer o Leeds. Os três ameaçados jogariam fora de casa.
Para completar, haveria um outro déja vu: um acidente na M1, maior autoestrada no sentido norte-sul da Inglaterra, provocou um engarrafamento que atrasou em 15 minutos o início do jogo em Londres - exatamente como acontecera contra o Bristol City em 1977. Diante de um Tottenham sem pretensões, os Sky Blues marcaram com Dion Dublin e Paul Williams, mas um gol de Paul McVeigh ainda no primeiro tempo recolocou a tensão na partida.
No fim, deu tudo incrivelmente certo para o Coventry, que venceu por 2 a 1 e escapou. Já o Sunderland (derrotado por 1 a 0 pelo Wimbledon) e principalmente o Middlesbrough (que parou no 0 a 0 com o Leeds) não tiveram a mesma sorte. A queda foi ainda mais doída para o Boro (do brasileiro Juninho Paulista e do italiano Fabrizio Ravanelli), que teve três pontos descontados em dezembro por não comparecer ao jogo com o Blackburn, alegando não ter time para levar a campo. Não fosse isso, o Coventry teria caído em seu lugar.
ENFIM, O DESCENSO
A temporada 2000-01 começou com o Coventry de cofres cheios: a Inter de Milão pagou a bagatela de £13 milhões ao clube pelo jovem atacante irlandês Robbie Keane. Com metade desse valor, os Sky Blues trouxeram Craig Bellamy do Norwich. Mas, mesmo contando com bons nomes até internacionais, como o goleiro sueco Magnus Hedman e o talentoso meia marroquino Mustapha Hadji, a equipe sentiu falta mesmo foi do ex-capitão Gary McAllister: o meia escocês de 35 anos saiu de graça por fim de contrato com destino ao Liverpool.
Assim, o roteiro de outros anos de briga contra o rebaixamento se repetiu: vitórias escassas espalhadas entre longas sequências de (poucos) empates e (muitas) derrotas, inclusive mais ou menos nas mesmas épocas de sempre. Após flertar com a zona de rebaixamento em dezembro, o time entrou nela de vez em janeiro e não saiu mais. Nem o tradicional respiro de abril adiantou: em 5 de maio, contra o rival Aston Villa fora de casa, o time chegou a abrir 2 a 0 com belos gols de Hadji, mas levou a virada no segundo tempo, selando a queda.
Por ironia, após escapar do descenso na última hora uma dezena de vezes, o Coventry caiu com uma rodada de antecipação, encerrando uma história de 34 temporadas seguidas na elite. Mesmo assim, o ex-meia escocês Gordon Strachan, que vinha dirigindo o time desde novembro de 1996, quando ainda conciliava as funções de jogador e técnico, foi mantido no cargo. Afinal, era consenso entre dirigentes, torcida e imprensa que o clube certamente voltaria à Premier League logo na temporada seguinte. Acabaram errando por 25 anos.




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