Manchester United 1955-56: 'Busby Babes' levantam seu primeiro caneco
- Emmanuel do Valle

- há 17 horas
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Mais do que o nascimento de um grande esquadrão, a conquista do Campeonato Inglês da temporada 1955-56 pelo Manchester United representa a pedra de toque de uma tradição: a de formar os elencos históricos de seus períodos mais vencedores nas próprias categorias de base. Há exatos 70 anos, em 7 de abril de 1956, os jovens pupilos do técnico Matt Busby, logo apelidados Busby Babes, derrotavam seu principal perseguidor, o Blackpool de Stanley Matthews, num confronto direto em Old Trafford e levantavam antecipadamente o título da liga. Dos 24 jogadores que atuaram na campanha, apenas quatro haviam vindo de fora.
ANTES DA REVOLUÇÃO
Fundado em 1878 sob o nome de Newton Heath, o Manchester United é quase uma década mais antigo que seu principal rival, o Manchester City (este, surgido em 1887 como Ardwick). Porém, os dois entraram juntos para a Football League, em 1892, quando a entidade absorveu a extinta Football Alliance, da qual ambos os clubes faziam parte. E se o City, já com a nomenclatura definitiva, seria o primeiro clube de Manchester a chamar a atenção do país ao brigar pelo título da liga e conquistar o da FA Cup na temporada 1903-04, o United se tornaria, um pouco mais tarde, o primeiro da cidade a conquistar o título inglês.
Promovidos da segunda divisão em 1906, os Red Devils logo tomariam para si os holofotes: na virada da década, a equipe do zagueiro Charlie Roberts, do ponta Billy Meredith e do goleador Sandy Turnbull (os dois últimos, curiosamente, ex-jogadores do City) venceu duas vezes o Campeonato Inglês, em 1908 e 1911, e igualou o feito do rival ao também levantar a FA Cup em 1909, numa final contra o Bristol City. Deste período até a paralisação do futebol devido à Primeira Guerra, o Manchester United (assim como o rival City) passaria a cumprir campanhas discretas, destacando-se somente com o quarto lugar na temporada 1912-13.
O futebol voltaria em 1919, mas o chamado período "entreguerras" (intervalo entre os dois grandes conflitos mundiais) se revelaria desastroso para o United. Das 20 temporadas compreendidas entre 1919-20 e 1938-39 (a última antes da nova interrupção dos jogos), os Red Devils terminaram apenas uma vez na metade de cima da tabela na primeira divisão, mesmo assim com um modesto nono lugar em 1925-26, ano em que também alcançaram a semifinal da copa. Por outro lado, foram rebaixados três vezes (1922, 1931 e 1937) e, ao todo, passaram nove temporadas – quase metade do tempo – na segunda divisão.
O fundo do poço seria a temporada 1933-34. Enquanto o rival City conquistava a FA Cup pela segunda vez e terminava num bom quinto posto na primeira divisão, o United chegava à última rodada da segunda divisão, em 5 de maio de 1934, ocupando o penúltimo lugar, precisando desesperadamente vencer o confronto direto contra o Millwall fora de casa para escapar do que seria um inédito rebaixamento à terceira divisão. Para o alívio da metade vermelha de Manchester, a salvação veio com uma vitória por 2 a 0. Por ironia, a guinada do clube após a Segunda Guerra se daria sob o comando de um campeão da copa pelo rival.
O HOMEM DA RECONSTRUÇÃO
Escocês da cidade de Bellshill (a 16 quilômetros de Glasgow) Alexander Matthew Busby nasceu em 26 de maio de 1909, pouco mais de um mês após o Manchester United vencer a FA Cup pela primeira vez. Fanático por futebol, o garoto que perdera o pai ainda na infância nos campos de batalha da Primeira Guerra defendia um time júnior chamado Denny Hibs quando recebeu uma proposta de contrato do Manchester City. Em fevereiro de 1928, aos 18 anos de idade, Matt Busby assinava com os Citizens e deixava para trás a ideia de sua mãe de emigrar para os Estados Unidos para seguir carreira como atleta profissional.
Busby só faria sua estreia pelo time principal do City um ano e meio depois, mas não levaria muito tempo até se firmar, fixando-se na posição de médio-direito. O clube de Maine Road vivia bom momento naquele começo dos anos 1930, sobretudo na FA Cup: semifinalista em 1932, chegaria à decisão em Wembley em 1933 (perdendo para o Everton por 3 a 0) e 1934 (vencendo o Portsmouth por 2 a 1), sempre com Busby na linha média. Porém, em março de 1936, o jogador seria vendido ao Liverpool (ironicamente, outro grande rival do Manchester United), chegando mais tarde a capitão do time. Até vir a nova paralisação do futebol.

A Segunda Guerra efetivamente encerrou a carreira de jogador profissional de Busby, que durante o período do conflito ainda atuou como convidado por vários clubes nas partidas e torneios não oficiais que eram realizados pelo país. Durante a guerra, ele comandou um time das Forças Armadas britânicas, o que levou os Reds a lhe oferecerem um contrato de auxiliar do técnico George Kay no fim de 1944. O escocês, no entanto, tinha suas próprias ideias sobre estilo de jogo e gestão do time, e as partes não chegaram a um acordo.
Por essa época, quem andava em busca de técnico era o Manchester United: desde 1937 a equipe vinha sendo dirigida pelo secretário do clube, Walter Crickmer, que agora pretendia se concentrar nas funções burocráticas. Louis Rocca, uma espécie de "faz-tudo" do clube, conhecia Matt Busby de longa data e indicou seu nome para o cargo, enviando-lhe ainda uma carta com a proposta de trabalho. O escocês então se encontrou com o presidente do United, James W. Gibson, e expôs suas ideias, além das condições para aceitar a oferta.
Entre as exigências de Busby estava tudo o que viria a ser atribuído à figura do manager no futebol inglês: comandar (ou ao menos supervisionar) os treinos, escalar a equipe e gerir o elenco, sendo responsável pela compra e venda de jogadores. Tudo isso sem a interferência dos demais diretores, os quais, segundo o escocês, não entendiam de futebol tanto quanto ele. Até mesmo a duração do contrato foi alterada a pedido de Busby: o clube pretendia um compromisso de três anos, mas o treinador contra-argumentou dizendo que só após cinco anos o resultado de seu trabalho de reconstrução poderia ser mais nitidamente notado.
O contrato foi assinado naquele dia, 19 de fevereiro de 1945. Mas a Era Busby só começaria de fato em 1º de outubro, quando o treinador deu baixa nas Forças Armadas. A temporada 1945-46 marcaria o retorno da disputa da FA Cup, mas o Campeonato Inglês só voltaria na campanha seguinte. Além disso, com o estádio de Old Trafford bastante danificado pelos bombardeios da Luftwaffe, a aviação da Alemanha nazista, o Manchester United precisaria mandar seus jogos em Maine Road, casa do rival City, por alguns anos após o fim da guerra.
VOLTAM OS CANECOS
O trabalho de Busby, no entanto, não demorou a mostrar resultados. O Manchester United, que não pegava um Top 3 no campeonato desde o distante último título em 1911, terminou em segundo nada menos que quatro vezes nas cinco primeiras temporadas pós-guerra. Na primeira delas, o título ficou com o Liverpool por um ponto. O consolo veio com a vitória na FA Cup em 1948, derrotando o Blackpool de Stanley Matthews por 4 a 2 em Wembley. Seria o primeiro de uma extensa galeria de canecos levantados sob o comando de Matt Busby.
O fim do jejum na liga viria enfim em 1952, 41 anos após a conquista anterior, e de maneira gloriosa: com goleada de 6 a 1 sobre o vice-líder Arsenal em Old Trafford (ao qual o clube retornara em 1949) num caso raro de confronto direto pelo título na última rodada. Contudo, o time passaria longe de brigar pelo bicampeonato na campanha seguinte. Na verdade, chegou a perambular pelas últimas posições da tabela antes de iniciar uma reação a partir de dezembro. Mas aquela seria uma temporada de transição. Busby acalmava os torcedores preocupados lembrando: "Temos £200 mil de talento nos nossos times reserva e juvenil".
Naquele tempo não era muito comum que os clubes – sobretudo os de primeira divisão e com poder aquisitivo um pouco maior – formassem seus próprios jogadores. Os atletas mais jovens costumavam ser pinçados de equipes das divisões inferiores da liga ou mesmo de times amadores ou semiamadores da chamada non-league. O Manchester United, porém, já dera um passo nesse sentido em 1938 ao fundar, por influência do já citado Walter Crickmer, o Manchester United Junior Athletic Club, espécie de academia de jovens talentos.

Quando Matt Busby chegou a Old Trafford, logo trouxe Jimmy Murphy, ex-médio do West Bromwich Albion e da seleção do País de Gales, para ser seu braço direito. Os dois haviam se conhecido durante a Guerra, e Busby se impressionara com sua oratória e sua liderança. Assim, quando o galês chegou, foi encarregado pelo técnico de comandar o time reserva e observar os talentos que despontavam nas categorias de base. O time que levou o título inglês de 1952 não era exatamente jovem e rapidamente começou a envelhecer e entrar em declínio. Para Busby e Murphy, porém, renovar o elenco não seria um grande desafio.
Na temporada 1952-53, a Football Association instituiu a FA Youth Cup, versão juvenil de sua mais tradicional competição. Naturalmente, o primeiro campeão seria o Manchester United, que teve o Wolverhampton como adversário na final em jogos de ida e volta. Na primeira partida, em Old Trafford, no dia 4 de maio de 1953, os Red Devils deixaram claro o estágio avançado em que estavam na formação de jovens jogadores aplicando um sonoro 7 a 1. Na volta, no Molineux, um empate em 2 a 2 serviu para garantir a taça da edição inaugural.
E o United não pararia por aí: emendaria um sensacional pentacampeonato da competição. Na edição seguinte, em 1954, voltaria a superar os Wolves na final, desta vez vencendo na casa do adversário na partida de volta. Em 1955, o título viria contra o West Bromwich Albion – que incluía um futuro jogador dos Red Devils, o médio Maurice Setters – com um elástico 7 a 1 no placar agregado. Em 1956, o adversário derrotado na decisão seria o Chesterfield, do goleiro Gordon Banks. E o penta, em 1957, seria levantado diante do West Ham, outro clube que começava a olhar para a base, com goleada de 5 a 0 em casa.
Essa garotada logo seria agregada em grande escala ao elenco principal: na temporada 1953-54, em que o United saltou de um indiferente oitavo lugar na campanha anterior para um bom quarto posto, o time-base já apontava claramente para o futuro, assemelhando-se muito mais ao das temporadas seguintes do que ao do título de 1952. Contudo, ainda havia um certo componente de experiência do qual os logo denominados Busby Babes careciam. O time começou voando a campanha de 1954-55, mas sucumbiu a uma irregularidade típica de uma equipe ainda imatura: terminou em quinto lugar com 20 vitórias e 15 derrotas.
A TEMPORADA: INÍCIO OSCILANTE
Por isso, quando a temporada 1955-56 estava para começar, a imprensa não citava o United entre os candidatos ao título – nem mesmo a local. O Chelsea, atual campeão, naturalmente teria a missão de defender seu título. Mas havia o Wolverhampton de Stan Cullis, sólido e organizado como sempre, ainda que não muito vistoso. Falava-se muito de outro time de Midlands, o West Bromwich Albion, que chegara muito perto de uma dobradinha em 1953-54 e fizera uma campanha seguinte ruim, mas tinha talento para reagir. E do Portsmouth, vindo de um terceiro lugar e de novo cotado a repetir as conquistas da virada da década.
A descrença no Manchester United foi, num primeiro momento, justificada quando a equipe estreou no campeonato, em 20 de agosto de 1955, empatando por 2 a 2 fora de casa com o recém-promovido Birmingham City após ter estado duas vezes em vantagem. Dali a quatro dias, no primeiro jogo em Old Trafford, novo 2 a 2, agora diante do Tottenham. Agosto, no entanto, terminou bem, com duas vitórias: de novo jogando em casa, o time de Matt Busby bateu o West Brom por 3 a 1. E na quarta rodada já fazia o jogo de volta contra o Tottenham em White Hart Lane (essa repetição "precoce" de partidas era comum na época), vencendo por 2 a 1 para fechar o mês em quinto, mas com a mesma pontuação do líder Sunderland.
Mas se agosto havia terminado com calmaria, as turbulências viriam com força em setembro. Nos quatro primeiros jogos do mês, o United perdeu três, vencendo apenas o Everton de virada por 2 a 1 em Old Trafford no dia 7. Quatro dias antes, a invencibilidade havia caído justo diante do rival Manchester City em Maine Road (1 a 0). E na sequência, o time perderia na visita ao Sheffield United em Bramall Lane no dia 10 (também por 1 a 0) e concederia a revanche ao Everton, sendo derrotado por um duro 4 a 2 em Goodison Park, no dia 14. Por sorte, a sequência ruim não representou queda brusca na tabela: o time era o sétimo.

Saindo com "ferimentos leves", o United voltaria a viver um momento favorável na segunda quinzena daquele mês. Tudo começou com uma vitória por 3 a 2 em casa sobre o Preston North End, importante para mudar o astral, já que o time saiu na frente, sofreu a virada, mas acabou prevalecendo. Setembro terminaria com um 0 a 0 na visita ao Burnley, mas a boa fase se estenderia a outubro, pelo qual a equipe de Matt Busby passaria sem conhecer uma derrota sequer nos cinco duelos pelo campeonato. Além de começar mostrando que era, sim, um time de personalidade ao vencer o Luton por 3 a 1 em grande virada na etapa final.
Uma semana depois, também em Old Trafford, chegaria o muito aguardado confronto com o Wolverhampton, que cumpria campanha irregular na temporada, mas ainda era capaz de triunfos impressionantes, como os 7 a 2 no Manchester City e os 9 a 1 sobre o Cardiff fora de casa. No intervalo o United vencia por 1 a 0, mas na etapa final os Wolves passaram à frente primeiro por 2 a 1 e depois por 3 a 2. Os donos da casa, porém, foram buscar o empate por duas vezes. E a dois minutos do fim, o ponta-direita Johnny Berry cobrou escanteio, e o goleador Tommy Taylor cabeceou decretando o 4 a 3 em meio à euforia da torcida local.
O United se veria envolvido em outro jogo movimentado na visita ao Aston Villa dali a uma semana: saindo de dois gols de desvantagem em pouco mais de 20 minutos, conseguiu virar o placar para 4 a 2 no início da etapa final, mas depois cedeu o 4 a 4. Outubro, porém, terminaria com duas vitórias: 3 a 0 no Huddersfield em Old Trafford e um importante 1 a 0 sobre o Cardiff no Ninian Park, que, graças ao tropeço do Sunderland diante do Everton em casa (0 a 0), levou o time de Matt Busby a ultrapassar os Rokerites e assumir a liderança.
A primeira estadia no topo da tabela, no entanto, duraria apenas duas rodadas. O empate em 1 a 1 com o Arsenal em casa e a derrota de virada por 3 a 1 na visita ao Bolton nos dois primeiros jogos de novembro fizeram o time descer para o terceiro lugar, com o Sunderland retomando a liderança e o Blackpool também ultrapassando para ocupar o segundo posto. Essa rateada veio bem na hora de o time receber o Chelsea, atual campeão, em Old Trafford no dia 19 de novembro. Incidentalmente, seria a partida em que, pela primeira vez naquela temporada, entraria em campo o que pode ser considerado o time-base da conquista.
A EQUIPE
Escalado no sistema WM, predominante no futebol inglês da época, e quase todo feito em casa, o time titular começava pelo goleiro Ray Wood, uma exceção à regra dos pratas-da-casa, embora tenha chegado muito cedo a Old Trafford, trazido do pequeno Darlington com 18 anos de idade. Já os dois zagueiros laterais eram, sim, formados no clube: Bill Foulkes dono da posição pelo lado direito desde 1953-54, e o mais experiente Roger Byrne, um dos dois únicos titulares remanescentes da equipe campeã de 1952, jogador de perfil ofensivo, em outros anos chegara a ser escalado por vezes na ponta-esquerda.
No miolo de zaga, quem despontava era outro jovem, Mark Jones, 22 anos, tornado titular naquela temporada no lugar do veterano Allenby Chilton, que era até ali o capitão do time e estivera na Copa do Mundo de 1954 com a seleção inglesa. E se Jones era novato, o que dizer então da dupla de médios, Eddie Colman e Duncan Edwards? O primeiro fizera contra o Bolton sua primeira partida oficial no time de cima, dias após completar 19 anos. E ali, mesmo com a derrota, tomaria a posição de outro Busby Babe, Jeff Whitefoot.
Só um mês mais velho que Colman, Edwards era um talento ainda mais impressionante: o médio-esquerdo debutara no time de cima com apenas 16 anos e 185 dias, num jogo contra o Cardiff em abril de 1953, após o qual caminhou até se tornar titular absoluto a partir da temporada 1954-55. Apesar da pouca idade, era um tanque fisicamente e, ao mesmo tempo, imponente tecnicamente, capaz de liderar o time à frente, indo de área a área – um legítimo "box-to-box", portanto. Quando a campanha de 1955-56 começou, ele já havia até estreado pela seleção inglesa numa excursão à Europa continental, em maio de 1955.

Taticamente, vale lembrar que, embora o time fosse armado no WM, as duplas de médios e de meias não atuavam exatamente em linha, como no formato clássico do sistema. Colman, por exemplo, posicionava-se mais recuado em relação a Edwards, da mesma forma que o meia-direita jogava mais atrás que o meia-esquerda, num desenho que se assemelhava até ao do "primo" brasileiro do WM, a chamada "diagonal" muito adotada por aqui nos anos 1940 e 1950. A meia-direita, aliás, foi a posição mais disputada ao longo da campanha.
A camisa 8 teve três donos naquela caminhada – todos eles pratas-da-casa, naturalmente. O primeiro deles foi Jackie Blanchflower (cujo irmão mais velho, Danny, viria a fazer história no Tottenham). O norte-irlandês atuou na posição em 14 dos 17 jogos iniciais, além de vez por outra ser remanejado para outras funções. Em parte da reta final, foi a vez do irlandês Liam Whelan (às vezes chamado de Billy Whelan), que começara a aparecer no time de cima na temporada anterior. Mas quem atuou mais vezes foi John Doherty por margem estreitíssima: das 42 partidas da campanha, fez 15 na posição contra 14 de Blanchflower e 13 de Whelan.
Já na meia-esquerda, o dono da camisa 10, Dennis Viollet, tinha função bem semelhante ao de um típico ponta-de-lança, isto é, vir de trás como um segundo atacante por dentro para se aproximar do centroavante e tabelar com ele. Outro cria do clube, tornou-se titular na temporada 1953-54, juntamente com seu parceiro de frente, Tommy Taylor – este, um dos poucos não revelados em Old Trafford: veio comprado do Barnsley em março de 1953. Os dois formavam uma dupla demolidora: naquela temporada anotaram juntos 45 gols. Poucos foram os jogos em que, estando em campo, ao menos um dos dois não tenha marcado.
Taylor, sobretudo, atravessava um período impressionante: o jogo contra o Chelsea daquele 19 de novembro, no qual marcou dois gols na vitória por 3 a 0, era o quinto seguido em que balançava as redes. E mesmo tendo ficado quase um mês fora do time logo no começo da campanha, ele já acumulava 11 gols em 11 partidas disputadas no campeonato. Jogador de seleção inglesa desde 1953, ao fim daquela temporada ele teria grande atuação na vitória de 4 a 2 dos Three Lions sobre o Brasil num amistoso em Wembley, marcando dois gols.
Por fim, os pontas: pela direita, Johnny Berry, o outro remanescente da conquista da liga em 1952. Do time titular era não só o mais experiente (tinha 29 anos na temporada 1955-56) como um dos três jogadores não formados no clube (viera do Birmingham, onde começou a carreira, em 1951). Na esquerda, num contraste, atuava um dos mais jovens do elenco: David Pegg, 19 anos ao início daquela campanha em que se tornaria titular, embora já viesse atuando eventualmente pelo time de cima desde a temporada 1952-53. Os dois, contudo, tinham estilos semelhantes: velocidade, drible e jogadas buscando a linha de fundo.
A ARRANCADA
No mesmo dia em que o United derrotou o Chelsea por 3 a 0, o líder Sunderland sofreu um surpreendente atropelo em sua visita ao Luton, perdendo por incríveis 8 a 2. O resultado fez o time de Matt Busby subir uma posição na tabela tendo a mesma pontuação do Blackpool, que, no entanto, levava vantagem no critério do goal average (divisão dos gols marcados pelos sofridos) então adotado como desempate. E o próximo compromisso dos Red Devils seria exatamente descer até o litoral para enfrentar os novos ponteiros. E, naquele sábado, 26 de novembro, um empate em 0 a 0 obtido contra os Seasiders seria um bom resultado.
Até porque a sequência era crucial: o primeiro jogo de dezembro - um mês de calendário bastante pesado, como veremos - seria em Old Trafford contra os ex-líderes, o Sunderland. E foi uma vitória dramática: a quatro minutos do fim, Dennis Viollet balançou as redes para decretar a virada por 2 a 1. Mas valeu para assumir a liderança isolada, diante do empate do Blackpool em Londres contra o Tottenham (1 a 1). Na semana seguinte, porém, o time seria desalojado da ponta ao ser derrotado na visita ao Portsmouth por 3 a 2 de maneira incrível: vencia por 2 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo, mas um gol de Jimmy Dickinson e outro contra de Mark Jones fizeram o triunfo trocar de mãos, passando ao Pompey.
Seria um resultado que certamente traumatizaria muitas equipes. Entretanto, não foi o caso do jovem United. O próximo desafio, em 17 de dezembro era contra o Birmingham em casa. O adversário faria naquela temporada a melhor campanha de sua história na elite, ficando em sexto lugar, mas naquele momento enfrentava oscilações gritantes: em seus últimos 12 jogos, vencera seis e perdera seis. E antes de visitar Old Trafford, goleara o Arsenal por 4 a 0 para logo em seguida apanhar de 6 a 0 do Bolton. No primeiro tempo, Dennis Viollet abriu o placar para os Red Devils. Na etapa final, Eddy Brown chegou a igualar para os visitantes, mas seis minutos depois Mark Jones se redimiu do gol contra no jogo anterior e fez 2 a 1.

A outra boa notícia veio outra vez de Londres: o Blackpool havia sido goleado pelo Arsenal (4 a 1), permitindo ao United retornar ao topo da tabela – desta vez, para não sair mais até o fim da temporada. E representaria a injeção de ânimo para suportar um calendário absurdo que aquele fim de ano reservava ao time e ao campeonato: seriam três rodadas completas num intervalo de quatro dias, entre 24 e 27 de dezembro, além de outra para fechar o ano no dia 31. Na véspera de Natal, o United viajaria para enfrentar o West Bromwich Albion em Hawthorns. No dia 26 (rodada de Boxing Day), receberia o Charlton, para, no dia seguinte, ir a Londres retribuir a visita. Por fim, para o dia 31 estava marcado o derby de Manchester.
E a dupla Taylor-Viollet brilhou. Nos 4 a 1 sobre o West Brom, Viollet marcou três vezes, com Taylor anotando o outro tento. Em seguida, contra o Charlton, nova goleada: 5 a 1, com dois de Viollet e um de Taylor, além de um de Doherty e outro do lateral e capitão Roger Byrne cobrando pênalti. Os Addicks tiveram sua revanche 24 horas depois em Londres, aplicando um 3 a 0 num United irreconhecível, mas nem esse revés abalou a campanha. No dia 31, em nova virada por 2 a 1, o time venceu o rival Manchester City em Old Trafford e se manteve na liderança. Os autores dos gols? Tommy Taylor e Dennis Viollet, naturalmente.
A tabela na virada do ano mostrava o Manchester United com 34 pontos, quatro a mais que o Blackpool e cinco à frente do Luton (estreante na primeira divisão e surpresa do certame até ali) e do Burnley. Os Red Devils, no entanto, haviam feito uma partida a mais que os três perseguidores. O ano de 1956 começou com uma surpreendente derrota logo na estreia na FA Cup: sexto colocado da segunda divisão, o Bristol Rovers não teve trabalho para impor uma goleada de 4 a 0 sobre um United que, dos titulares, só não teve Bill Foulkes e Duncan Edwards. Se havia um lado positivo, era que a eliminação deixava o calendário mais livre.
Uma semana depois da derrota em Bristol, o United voltou ao caminho das vitórias na liga, superando o Sheffield United em Old Trafford por 3 a 1. Na outra partida do campeonato naquele mês de janeiro, no entanto, o time sofreria sua última derrota na temporada, diante do Preston North End em Deepdale. Curiosamente, quem abriria o placar de 3 a 1 para os donos da casa seria o atacante Eddie Lewis, que participara do começo daquela campanha dos Red Devils (e até marcara um gol) antes de ser vendido aos Lilywhites em dezembro.
Naquela rodada de 21 de janeiro, o Blackpool derrotou o Wolverhampton por 3 a 2 fora de casa e encurtou a diferença do United para apenas dois pontos, tendo um jogo a menos. O time de Matt Busby, no entanto, fechou a porta aos perseguidores ao longo de fevereiro, ao vencer simplesmente as quatro partidas que disputou naquele mês. Primeiro, a dupla Taylor-Viollet voltou a marcar nos 2 a 0 sobre o Burnley em Old Trafford. Depois, o placar se repetiu em duas importantes vitórias fora de casa sobre Luton e Wolverhampton. Por fim, de volta ao lar, um gol de Liam Whelan deu ao United o triunfo por 1 a 0 sobre o Aston Villa.
NA RETA FINAL, NADANDO DE BRAÇADAS
A quinta vitória viria no começo de março diante do detentor do título, o Chelsea, dentro de Stamford Bridge, em mais uma virada magnífica. Os londrinos marcaram dois gols seguidos aos 21 e 22 minutos do primeiro tempo. Mas aos 26, David Pegg descontou. Na etapa final, foi a vez de a dupla goleadora entrar em ação: Dennis Viollet marcou duas vezes (aos 15 e aos 24) e Tommy Taylor, no último minuto, completou o categórico placar de 4 a 2. O United já abria seis pontos do Blackpool e 11 do terceiro colocado Newcastle, embora com uma partida a mais. A vantagem era tão confortável que nem os dois empates seguidos vindos logo depois (1 a 1 com o Cardiff em casa e com o Arsenal fora) geraram preocupação.
Em 24 de março, um gol solitário de Tommy Taylor deu a vitória por 1 a 0 sobre o Bolton em Old Trafford, resultado que mais uma vez dava fôlego ao time antes de mais uma sequência absurda de três jogos em quatro dias. O Manchester United enfrentaria o Newcastle duas vezes – em casa no dia 30 de março e fora no dia 2 de abril – e, entre os dois jogos, visitaria o Huddersfield no dia 31. A minimaratona começaria com uma tranquila goleada de 5 a 2 sobre os Magpies, passando pela vitória por 2 a 0 em Yorkshire (dois de Tommy Taylor) até fechar com um 0 a 0 no St. James' Park, concluindo um cenário extremamente favorável.
E assim o era porque o Blackpool tropeçara duas vezes em casa, empatando com o Bolton (0 a 0) no dia 30 e com o Sheffield United, antepenúltimo colocado, (1 a 1) no dia 31. Seis pontos atrás e com quatro jogos por fazer (contra três do Manchester United), os Seasiders dependiam de uma sequência final praticamente perfeita para não deixarem a taça tomar o rumo de Old Trafford. O problema é que o próximo jogo era justamente o confronto direto na casa dos Red Devils. Já para o United, a missão era simples naquele 7 de abril: vencer e confirmar matematicamente a conquista faltando duas partidas para completar sua tabela.
O líder, entretanto, não estava imune a problemas: quatro dias antes da partida, Matt Busby e o auxiliar Jimmy Murphy haviam sofrido um acidente automobilístico, sem gravidade. O técnico, aliás, não estaria presente a Old Trafford: sua sogra havia falecido e ele teve de ir ao funeral. E, por um momento, os Seasiders liderados pelo astro Stanley Matthews seriam autorizados a sonhar: o atacante David Durie escorou de cabeça um cruzamento de Jackie Mudie e abriu o placar para os visitantes logo aos dois minutos, deixando a tensão no ar.

Mas, na etapa final, com mais de 62 mil torcedores em Old Trafford empurrando o time da casa, o United - pela oitava vez naquela campanha - venceria de virada: aos 15, Johnny Berry empataria de pênalti e, a dez minutos do fim, Tommy Taylor decretaria mais um 2 a 1 a favor dos Red Devils, e o título estava absolutamente assegurado. Em sua análise, o jornal The Times destacou que a tendência para os próximos anos era o clube manter sua força, "pois ainda há uma grande quantidade de jovens talentos promissores". E este perfil formador, segundo o diário, fazia do United um modelo: "É aí que reside sua força, e não no poder do talão de cheques. Quanto mais clubes aprenderem essa lição, melhor para o futebol inglês".
Nos dois jogos restantes da campanha, o time empataria fora de casa com o Sunderland em 2 a 2, num jogo em que entraria com vários reservas, e fecharia vencendo o Portsmouth por 1 a 0 em Old Trafford, gol de Dennis Viollet. Esta última vitória, aliás, confirmava uma marca expressiva: o time encerraria sua campanha invicto em casa, somando 18 vitórias e apenas três empates em seus domínios - era a primeira vez que o um clube conseguia este feito desde o próprio Portsmouth campeão na temporada 1948-49. No fim das contas, a jovem equipe de Matt Busby, com média de idade inferior a 23 anos, terminava o campeonato 11 folgados pontos à frente dos tarimbados elencos do Blackpool e do Wolverhampton.
Na temporada seguinte, o United conquistaria o bi com campanha igualmente dominante: seriam oito pontos de vantagem para Tottenham e Preston North End e nada menos do que 103 gols marcados. Além disso, desafiariam a Football League para se tornarem o primeiro clube inglês a participar da Copa dos Campeões, alcançando as semifinais do novo torneio, caindo apenas para o campeão Real Madrid. Já em 1957-58, o time estava novamente no páreo pelo título da liga e da competição europeia. Mas teria sua caminhada tragicamente interrompida pelo desastre aéreo de Munique, quando retornava do jogo contra o Estrela Vermelha em Belgrado, no dia 6 de fevereiro de 1958. Mas esta é outra história.



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