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Há 60 anos, Everton vencia copa em virada sensacional e herói improvável

  • Foto do escritor: Emmanuel do Valle
    Emmanuel do Valle
  • há 4 dias
  • 22 min de leitura
Mike Trebilcock (ao centro), o semidesconhecido atacante que virou herói da conquista do Everton.
Mike Trebilcock (ao centro), o semidesconhecido atacante que virou herói da conquista do Everton.

O título da FA Cup de 1966, conquistado há exatos 60 anos, tem lugar de destaque entre os cinco do Everton no torneio. A campanha brilhante até Wembley, sem nenhum gol sofrido, foi colocada à prova na final contra o Sheffield Wednesday, em que os Toffees tiveram de protagonizar uma reviravolta para vencer por 3 a 2. O triunfo teve como figura central o semidesconhecido atacante Mike Trebilcock, trazido sem alarde no meio da temporada e pouco utilizado até então, mas que escreveu seu nome na história da competição com dois gols na decisão. E além de ter vindo numa Inglaterra já respirando o clima da Copa do Mundo a ser recebida dali a dois meses, a partida contou com a presença ilustre de John Lennon e Paul McCartney nas arquibancadas do grande palco do futebol no país.


O MOMENTO DO CLUBE


Liverpool estava na "crista da onda", como se diz, na Inglaterra da década de 1960. Entre as temporadas de 1962-63 e 1969-70 (curiosamente, o mesmo período em que se desenrolou a carreira discográfica dos Beatles, os filhos mais famosos da cidade), o futebol inglês assistiu a um momento bastante positivo dos gigantes de Merseyside. O Liverpool dirigido pelo escocês Bill Shankly e o Everton sob o comando de Harry Catterick faturaram o campeonato duas vezes cada e viveram momentos muito especiais na FA Cup: os Reds, como lembrado aqui, conquistaram a taça pela primeira vez em sua história em 1965, enquanto os Toffees levaram o caneco no ano seguinte, encerrando um jejum de 33 anos na competição.


O Everton vinha de ótimas campanhas nas três últimas temporadas: campeão em 1963, ficou em terceiro em 1964 e quarto em 1965. Mas aquela temporada 1965-66 não havia começado tão boa: com desempenho ruim na liga, o time encerrara o ano de 1965 numa modesta 12ª colocação com sete derrotas nos últimos 11 jogos e sofrera goleada de 5 a 0 para o rival Liverpool em Anfield no fim de setembro. E em meados de novembro já havia caído na Copa das Cidades com Feiras, eliminado pelos húngaros do Ujpest Dozsa com um 4 a 2 no placar agregado, após terem superado os alemães-ocidentais do Nürnberg na fase anterior.


Sem participar da Copa da Liga, que já existia desde 1960, mas era então esnobada pelos clubes de maior peso no futebol inglês, restava ao Everton tentar a sorte na FA Cup, mas o momento era um tanto caótico: uma semana antes da estreia no torneio, a equipe viajara a Blackpool para enfrentar o time local pela liga, e Harry Catterick decidira barrar o atacante Alex "Golden Vision" Young, ídolo da torcida, escalando em seu lugar o garoto Joe Royle, de 16 anos. O Everton perdeu de 2 a 0, e os torcedores furiosos pediram a saída do técnico, levando a campo cartazes com os dizeres "Young In, Catterick Out". Na saída do jogo, o protesto virou agressão física, com o treinador chegando a ser empurrado ao chão.


Parecia que a única notícia animadora recebida pelo clube naquele início de ano vinha do sorteio da Copa do Mundo, que definiu o Brasil, então bicampeão mundial, como cabeça-de-chave do grupo 3, fazendo seus três jogos da primeira fase (além de possíveis partidas na etapa de mata-mata) no estádio de Goodison Park. Por tudo isso, a FA Cup – pela qual os Toffees teriam o Sunderland em casa como primeiro adversário na tarde de sábado, 22 de janeiro de 1966 – passou a ser tratada como a tábua de salvação da temporada. O problema, contudo, era que o Everton não levantava o famoso caneco desde o longínquo ano de 1933, quando derrotou o Manchester City por 3 a 0 na decisão em Wembley.


O TIME-BASE


Para a temporada 1965-66, o time-base do Everton já era um tanto diferente do que havia vencido a liga em 1963, os chamados "Chequebook Champions", ou "campeões do talão de cheques", elenco reunido a peso de ouro a partir de 1960 graças ao aporte financeiro do então presidente John Moores, magnata do império Littlewoods, que compreendia desde uma rede de loterias esportivas até lojas de departamento e de vendas pelo correio – todas elas com popularidade e abrangência nacional. Nas três temporadas posteriores ao título, o elenco foi reformulado com contratações pontuais e, sobretudo, rejuvenescido.



Havia, é verdade, uma certa espinha dorsal preservada, que incluía o goleiro Gordon West, os zagueiros Brian Labone e Brian Harris, o volante Jimmy Gabriel e o atacante Alex Young (aquele da polêmica barração no jogo com o Blackpool), além do ponta-direita Alex Scott, que terminara a campanha vitoriosa de 1963 como titular, apesar de jogar menos vezes que o então dono da posição, Billy Bingham, ao longo daquela temporada. Mas nas laterais, no meio-campo e no ataque, o time viu outros nomes chegarem – embora o clube fosse com bem menos voracidade ao mercado após o título da liga – e outros se firmarem.


Pelo lado direito da defesa, por exemplo, o prata-da-casa Tommy Wright tomou o posto do escocês Alex Parker. Já do lado esquerdo, o clube foi buscar Ray Wilson, da seleção inglesa, no Huddersfield, cedendo seu antigo titular Mick Meagan como moeda de troca. No meio, outro jogador revelado no próprio clube, Colin Harvey, consolidou-se aos poucos na função de armador no lugar do titular de 1963, Dennis Stevens. E no ataque foram duas mudanças: pelo centro, de tanto atritar com Harry Catterick, o galês Roy Vernon perdeu espaço para um reforço de luxo: Fred Pickering, trazido do Blackburn por £80 mil. E na ponta-esquerda, o centroavante improvisado Derek Temple desbancou o especialista Johnny Morrissey.


Era, de qualquer modo, uma equipe de experiência internacional. Dos 11 titulares, quatro tinham passagem pela seleção inglesa: Ray Wilson (titular absoluto do English Team de Alf Ramsey), Brian Labone (nome muito cotado para a Copa do Mundo), Fred Pickering e Derek Temple. Outros três haviam defendido a Escócia: Jimmy Gabriel, Alex Scott e Alex Young – sobretudo os dois últimos. E, entre os demais, Gordon West, Tommy Wright e Colin Harvey também defenderiam futuramente a Inglaterra. E seria com escalação titular completa que o Everton receberia o Sunderland pela chamada terceira fase "proper" da FA Cup, aquela em que os clubes das duas primeiras divisões faziam enfim sua entrada na competição.


O COMEÇO DA CAMPANHA


O Sunderland era o 15º colocado na elite, quatro posições abaixo do Everton. Havia folgado na rodada anterior da liga e vinha de um empate em 1 a 1 com o Manchester United em Old Trafford, mas não chegava a assustar, embora tivesse alguns bons jogadores, como o médio escocês Jim Baxter. Para os Toffees, seria uma oportunidade de revanche: dois anos antes, o time havia sido eliminado da FA Cup pelos Rokerites ao perder por 3 a 1 fora de casa pelas oitavas de final. E o troco acabaria vindo com uma tranquila vitória por 3 a 0.


O time de Harry Catterick já dominava amplamente a partida quando abriu a contagem aos 33 minutos do primeiro tempo: Alex Scott fez grande jogada pela ponta direita e cruzou na segunda trave para a cabeçada forte de Derek Temple. A bola quicou por baixo do goleiro Jim Montgomery e ainda tocou a parte interna do travessão antes de parar nas redes. Os visitantes raramente causavam problemas: Gordon West, que voltava naquela tarde ao gol do time azul de Merseyside após ausência desde outubro por lesão, mal era acionado.


Porém, somente no fim da etapa final é que o Everton conseguiria um placar mais folgado: A seis minutos do fim, Alex Scott outra vez infernizou a defesa do Sunderland e sofreu falta perto da área. Ele mesmo cobrou, e Jimmy Gabriel escorou de cabeça para Fred Pickering, de fora da área, encher o pé e mandar às redes sem chance para Montgomery. E aos 43, o goleiro do time visitante espalmou um escanteio para o lado, mas a bola sobrou para Alex Young, que finalizou mesmo sem ângulo e fechou a contagem, selando a classificação.


O adversário na quarta fase viria da non-league: o Bedford Town, clube que desde a década anterior vinha se habituando a fazer campanhas consistentes (para o seu status) no torneio, inclusive batendo equipes da Football League – como o Watford, o Norwich e o Newcastle – em algumas ocasiões. Naquela edição de 1965-66, o Bedford deixou outras duas (Brighton e Exeter City) pelo caminho nas duas primeiras fases "proper", além de despachar na terceira um velho conhecido da non-league, o Hereford United, antes de encarar o Everton.


O estádio do Bedford Town na capa do programa do jogo contra o Everton.
O estádio do Bedford Town na capa do programa do jogo contra o Everton.

A partida realizada em 12 de fevereiro de 1966 estabeleceu o recorde histórico de público do Bedford Town atuando no antigo campo de Queens Park, um indicativo do prestígio do Everton na época. Os 18.407 torcedores presentes assistiram ao confronto ansiosos por uma zebraça, mas os Toffees não deram a menor chance e já foram ao intervalo com dois gols de vantagem. O primeiro, aos 33 minutos, foi uma repetição do gol que abriu o placar contra o Sunderland: cruzamento de Scott, cabeçada de Temple. E o segundo, aos 43, também teve os dois atacantes envolvidos, mas a finalização de Temple foi com um chute na corrida.


Na etapa final, o Everton poderia ter tido um pênalti a seu favor quando Jimmy Gabriel foi derrubado na área por Collins, mas o árbitro mandou seguir. O Bedford ainda tentou ensaiar uma pressão na metade final do segundo tempo, mas acabou mesmo sofrendo o terceiro gol aos 34 minutos: Alex Scott bateu escanteio curto para Tommy Wright, e o lateral alçou na área para a cabeçada inapelável de Fred Pickering, fechando a segunda vitória por 3 a 0 para o Everton, que avançava rumo às oitavas de final da tradicional competição.


DESPACHANDO OS 'SKY BLUES'


O próximo adversário seria o Coventry City, clube em franca ascensão desde a chegada de Jimmy Hill, ex-meia do Fulham e ex-presidente da Associação de Futebolistas Profissionais (PFA), para o comando da equipe, empreendendo a chamada "Sky Blue Revolution", em que até a cor da camisa do time foi alterada, passando ao azul celeste pelo qual o clube se tornaria conhecido dali por diante. Promovido da terceira para a segunda divisão em 1964, naquela altura da temporada 1965-66 o Coventry perseguia implacavelmente os ponteiros Manchester City e Huddersfield na disputa por uma das duas vagas de acesso à elite.


Embora os dois clubes já contassem então mais de 70 anos de fundação, Everton e Coventry só haviam se enfrentado três vezes em partidas oficiais na história: em 1910, pela FA Cup, os Toffees venceram foram de casa por 2 a 0; e na temporada 1951-52, eles mediram forças na liga, quando o time de Merseyside andou pela segunda divisão. E os mandantes levaram a melhor: o Everton venceu por 4 a 1 no único duelo em Goodison Park, e o Coventry retrucou ganhando por 2 a 1 em Highfield Road. Com o confronto de 5 de março de 1966 revestindo-se de caráter especial, os Sky Blues prometiam fretar dois trens de luxo da British Railways para levar cerca de 10 mil torcedores ao Goodison Park, que comportava mais de 70 mil.


Os dois times chegavam para o confronto com baixas: o Everton não teria Tommy Wright, que torcera o tornozelo esquerdo no sábado anterior na vitória sobre o Chelsea (2 a 1) pela liga. Seu substituto seria o escocês Sandy Brown, lateral-esquerdo de origem, mas adaptado a jogar também pelo outro lado. Já o Coventry havia simplesmente vendido seu goleador na temporada, o atacante George Hudson (13 gols), para o Northampton, antepenúltimo colocado na primeira divisão, na antevéspera do confronto pela copa em Goodison Park.


Assim, o Coventry entrou em campo adotando a tática da retranca pura e simples. Até seu jogador mais famoso, o atacante Ray Pointer, campeão da liga com o Burnley em 1960 e com passagem pela seleção inglesa, atuava recuado ajudando a defesa. Na frente, o garoto Bobby Gould (que teria longa carreira como jogador e treinador) brigava e cavava sozinho contra a defesa dos Toffees. Além disso, como observou a crônica de Michael Charters para a partida, publicada pelo jornal Liverpool Football Echo and Evening Express, "O padrão de jogo do Coventry era bem claro desde o início: muitas entradas duras e obstrução física".


Mesmo assim, logo aos 13 minutos o Everton abriu o placar quando Alex Scott interceptou um passe errado do meia Ernie Machin e cruzou rasteiro para a chegada de Alex Young, que, mesmo travado por Brian Hill, conseguiu finalizar: a bola repicou na perna do defensor e cruzou a linha do gol meio em câmera lenta, tocando a trave antes de tomar o rumo das redes sem que o goleiro Bob Wesson pudesse alcança-la. No segundo tempo, o Coventry chegaria a empatar aos 16 minutos, mas o gol seria anulado por toque de mão de Gould.


Fred Pickering chuta para marcar o terceiro contra o Coventry.
Fred Pickering chuta para marcar o terceiro contra o Coventry.

Oito minutos depois, o Everton conseguiria o segundo gol para folgar no placar e tornar seu domínio mais concreto. O lance nasceu de uma bola escorada de cabeça por Pickering, que Harvey deixou para Temple finalizar com um belo chute da altura da meia-lua. E aos 42, os Toffees fechariam o confronto anotando o terceiro gol: Wesson falhou ao tentar espalmar um cruzamento e o zagueiro George Curtis afastou de cabeça apenas parcialmente. A bola sobrou para Alex Scott, que centrou para Pickering finalizar da pequena área, inapelável.


A terceira vitória seguida por 3 a 0 do Everton na competição não impediu Harry Catterick de elogiar o Coventry, que, segundo o técnico, "endureceu o jogo" para sua equipe numa partida "muito equilibrada até perto do final", quando a maior qualidade técnica do time de Merseyside, para seu treinador, passou a fazer a diferença. O adversário dos Toffees na fase seguinte, de quartas de final, sairia do confronto entre Manchester City e Leicester, que iria para o replay na casa deste último, após empate em 2 a 2 no estádio de Maine Road.


DUELO ENCARNIÇADO


O Manchester City acabaria vencendo o Leicester em Filbert Street por 1 a 0 e avançando às quartas para enfrentar o Everton. Naquela altura, o time de Harry Catterick já conseguira até aproveitar o bom momento na copa para se reabilitar também na liga: a última derrota havia sido aquela conturbada em Blackpool no dia 15 de janeiro. Desde então, os Toffees já somavam dez partidas sem perder, com oito vitórias e dois empates somando as duas competições, e subindo quatro posições no campeonato, do 11º para o sétimo posto.


O City, por sua vez, era mais líder do que nunca na segunda divisão, um ponto à frente do Huddersfield (que tinha um jogo a mais) e quatro acima do Coventry, além de ser o único ainda invicto em casa na categoria de acesso. Seu técnico era um ex-atleta do Everton, Joe Mercer, que vinha montando uma grande equipe, a qual incluía outro ex-Toffee, o zagueiro George Heslop. E para a partida da copa em Maine Road, no dia 26 de março, contaria com o time quase completo, à exceção do recém-contratado meia Colin Bell, que já havia atuado na competição pelo Bury, seu antigo clube, e não poderia fazê-lo pelo City na temporada.


Já o Everton tinha dois sérios desfalques: Fred Pickering havia lesionado o joelho em lance isolado no derby contra Liverpool em Anfield, disputado uma semana antes e que terminou em 0 a 0. A outra baixa, de última hora, seria a de Jimmy Gabriel, que sofreu lesão no treino da véspera da partida. Para o lugar de Pickering, Derek Temple seria remanejado da ponta, com Johnny Morrissey entrando pela esquerda, enquanto na vaga de Gabriel entraria o versátil Sandy Brown, uma vez que Tommy Wright já havia retornado na lateral-direita.


A chuva que caiu de maneira intermitente durante todo o dia em Manchester, no entanto, transformou o gramado de Maine Road num charco, repleto de poças d'água. Com isso, e em vista dos desfalques, o empate em 0 a 0 foi muito comemorado pelo Everton, que levava a decisão da vaga para um replay em Goodison Park. "Missão cumprida!", exclamou Horace Yates na crônica para o jornal Liverpool Daily Post. Sem Gabriel e Pickering, segundo ele, o limite das ambições do Everton em Maine Road era a "sobrevivência" no torneio, embora o cronista avaliasse que, com um pouco mais de frieza, os Toffees poderiam ter até vencido.


De camisas brancas e calções pretos, o Everton de Brian Harris (à direita) encara o Manchester City.
De camisas brancas e calções pretos, o Everton de Brian Harris (à direita) encara o Manchester City.

Três dias depois, contudo, o empate sem gols persistiu também em Goodison Park, mesmo após prorrogação. E apesar de o Everton voltar a contar com Fred Pickering, que cumpriu atuação abaixo da crítica, talvez ainda não plenamente recuperado da lesão. O fato era que o novo 0 a 0 refletiu um jogo muito truncado e levou o desfecho da série para um terceiro confronto, a ser disputado em campo neutro: o Molineux, em Wolverhampton. A boa notícia para os Toffees era a de que o time estaria de novo completo para a partida de 5 de abril.


O terceiro confronto começou com o Manchester City amassando: foram pouco mais de 30 minutos de pressão sufocante da equipe de Joe Mercer. Mas tão logo o Everton teve uma chance, foi letal: aos 37, numa falta do lado direito do ataque, Alex Scott fez o levantamento e Derek Temple emendou de primeira, do bico da pequena área, para abrir o placar. E aos 45, Brian Harris lançou Fred Pickering, que girou e bateu para o gol, com a bola acertando o travessão antes de entrar. O placar de 2 a 0 acalmou o time para o intervalo, e o segundo tempo se tornou apenas 45 minutos protocolares, antes de carimbar a vaga nas semifinais.


Avançar na copa, no entanto, também significava estrangular um pouco mais o calendário. Depois de fazer a terceira partida contra o Manchester City no dia 5, o Everton entraria em campo quatro vezes num intervalo de oito dias – jogando em 8, 9, 11 e 16 de abril – antes da semifinal, marcada para o dia 23. No último desses quatro jogos, os Toffees entraram com o time inteiramente reserva diante do Leeds em Elland Road, visando poupar os titulares para o duelo da copa, e acabaram advertidos e multados em £2 mil pela Football League.


CONFRONTO DE PESO


Mas o Everton sabia por que priorizava a copa: aquela era a primeira vez em 13 anos que o clube alcançava a semifinal do torneio: na última, em 1953, ao mesmo tempo em que fazia a pior temporada de sua história na liga (terminaria apenas em 16º na segunda divisão), ficou a um passo de Wembley após deixar pelo caminho Ipswich, Nottingham Forest, Manchester United e Aston Villa, caindo para o Bolton num movimentado 4 a 3 em Maine Road. E duas coincidências marcavam a nova caminhada: o adversário seria o Manchester United, o qual os Toffees haviam despachado em 1953. E o jogo seria em Burnden Park, estádio do Bolton.


O Manchester United não só mantinha o técnico daquele confronto anterior, o lendário Matt Busby, como havia se tornado uma das potências do futebol do país: o time de 1966, que vinha de conquistar a liga na temporada anterior, era ancorado em outro trio não menos lendário formado por Bobby Charlton, Denis Law e George Best. Este último, porém, seria desfalque na semifinal da FA Cup. Mas o Everton também tinha sua baixa preocupante: Fred Pickering voltou a sentir o joelho, e Harry Catterick preferiu não arriscar perder um jogador durante a partida, já que, naquele tempo, as substituições não eram permitidas na copa.


O semidesconhecido atacante Mike Trebilcock: chance de jogar na reta final.
O semidesconhecido atacante Mike Trebilcock: chance de jogar na reta final.

Após muitas especulações, o treinador decidiu que o substituto de Pickering seria um jovem atacante chamado Mike Trebilcock, vindo do modesto Plymouth Argyle, da segunda divisão, no último dia de 1965. Jogador de 21 anos, leve, veloz, oportunista e com bom chute a gol, Trebilcock havia sido a única contratação do Everton naquela temporada, e a primeira desde a saída de John Moores da presidência, em julho de 1965. O valor pago, £23 mil, foi motivo de críticas de parte dos torcedores por se tratar de um nome virtualmente desconhecido.


Trebilcock estreou com boa atuação num 2 a 2 com o Tottenham fora de casa no primeiro dia de 1966. Uma semana depois, em seu segundo jogo, marcou um dos gols da vitória dos Toffees sobre o Aston Villa por 2 a 0 em Goodison Park. Mas quando parecia em ascensão, sofreu lesão e acabou escanteado. Atuando pelos aspirantes, no entanto, chegou a marcar dois gols numa goleada de 4 a 0 nos aspirantes do Liverpool em Anfield. E naquele jogo contra o Leeds em que o Everton escalou reservas (e foi multado), ele foi um dos poucos a se salvar, anotando o gol de honra na derrota por 4 a 1. Catterick estava tomando nota.


Havia também outro dado que, embora não comentado na época, chamava a atenção: Mike Trebilcock era mestiço e tinha traços nitidamente afrodescendentes, o que era raríssimo no futebol inglês de então, quase 100% branco em toda a sua estrutura profissional. A origem racial de Trebilcock era incerta, mas isto não impediu que, décadas mais tarde, ele passasse a ser considerado o primeiro jogador negro a defender o Everton na história, como registra o livro Football's Black Pioneers, de Bill Hern e David Gleave, publicado em 2020.


Para a entrada de Trebilcock no time, porém, foi preciso remanejar Alex Young para o posto de centroavante – mas, naturalmente, atuando de um jeito diferente do de Fred Pickering, já que os estilos eram bem diferentes: Young, mais móvel e criativo, e Pickering, mais físico e de presença de área, um típico "target man". Outra mudança não era exatamente novidade naquela campanha: Sandy Brown entraria na lateral direita, substituindo o lesionado Tommy Wright. De resto, era a mesma escalação para tentar a 35ª vitória sobre o Manchester United na história dos confrontos oficiais (os Red Devils somavam 31 até ali, com 17 empates).



E ela viria num jogo muito disputado, com boas chances de cada lado e grandes atuações dos goleiros Gordon West e Harry Gregg. Nesse cenário, o único gol da partida só sairia aos 34 minutos da etapa final, num contra-ataque em que Alex Young abriu na esquerda para a descida de Derek Temple, que arrancou, viu Colin Harvey bem posicionado para finalizar e fez o passe. O chute cruzado venceu o goleiro do United e definiu o placar de 1 a 0 – que no fim quase foi ampliado por uma conclusão de Alex Young que acertou o pé da trave.


A FINAL


A vitória significava o retorno dos Toffees a Wembley depois de 33 anos sem alcançar a final da FA Cup. E seu adversário na decisão, o Sheffield Wednesday, também não chegava para disputar o título da competição desde 1935, quando levantou o caneco pela terceira vez ao bater o West Bromwich Albion por 4 a 2. O confronto, aliás, fazia resgatar outras épocas do futebol inglês, como, por exemplo, 1907, ano em que Everton e The Wednesday (nome do clube de Sheffield na época) se encontraram pela primeira vez na decisão, disputada no antigo estádio de Crystal Palace (sem relação com o clube de mesmo nome) e vencida pela equipe de Yorkshire por 2 a 1 graças a um gol de George Simpson nos minutos finais.


O duelo também evocava memórias da virada dos anos 1920 para os 1930, quando os dois clubes – o Everton do implacável goleador William "Dixie" Dean e o Wednesday do meia e capitão Jimmy Seed – venceram quatro das cinco ligas disputadas (duas para cada um) no período compreendido entre 1928 e 1932. Para concluir a relação dos laços históricos entre os clubes, havia o técnico Harry Catterick, que deixara exatamente o Sheffield Wednesday, em meio a divergências com os dirigentes, para dirigir o Everton em abril de 1961.


O Everton chegava à decisão sem ter sofrido nenhum gol até ali e buscava o feito de ser campeão sem ser vazado, algo que não acontecia desde que o Bury conquistou a copa em 1903. O Sheffield Wednesday, por sua vez, também carregava um dado impressionante: o de ter alcançado a final sem ter atuado nenhuma vez em casa, algo que só havia acontecido com o Birmingham City em 1956. Em sua caminhada até Wembley, o Wednesday superara Reading (3 a 2), Newcastle (2 a 1), Huddersfield (2 a 1) e Blackburn (2 a 1), sempre como visitante (e sem replay), antes de eliminar o Chelsea (2 a 0) no Villa Park nas semifinais.


Wembley recebeu para a final sua capacidade máxima de então, cerca de 100 mil pessoas, incluindo dois espectadores ilustres: John Lennon e Paul McCartney, que aproveitaram uma pausa nas gravações do próximo álbum dos Beatles, Revolver, para conferir como o clube de sua cidade, o Everton, se sairia naquela final. O grupo havia recentemente gravado seu mais novo compacto trazendo as canções "Paperback Writer" e "Rain", a ser lançado no fim daquele mês, e dali a cinco dias filmaria, sob direção de Michael Lindsay-Hogg, os históricos e pioneiros videoclipes coloridos para as duas músicas, os quais marcariam época.


Considerado o azarão naquela final, o Wednesday dirigido por Alan Brown havia terminado a liga num modesto 17º lugar, mas tinha seus trunfos: a experiência do goleiro Ron Springett (titular da Inglaterra na Copa de 1962 e agora disputando a camisa 1 dos Three Lions com Gordon Banks), do médio Gerry Young e do meia Johnny Fantham, remanescentes do time vice-campeão inglês em 1961, além dos jovens talentos do armador escocês Jim McCalliog e do centroavante David Ford, vindo de período goleador. Mas tinha desfalque importante na defesa: lesionado durante a semifinal contra o Chelsea (embora tenha atuado até o fim), o zagueiro Vic Mobley estava fora da decisão e seria substituído pelo novato Sam Ellis.


A APOSTA DE CATTERICK


Contudo, a maior surpresa na escalação viria do lado do Everton: Fred Pickering vinha se recuperando da lesão no joelho e, num primeiro momento, parecia nome certo na decisão no comando do ataque dos Toffees. Mas nos dias que antecederam a partida, esta certeza foi aos poucos se esvaindo. Ainda assim, quando a escalação foi anunciada, o choque foi grande não só pela ausência do titular como pelo substituto escolhido. Em vez de, por exemplo, entrar com Johnny Morrissey na ponta-esquerda, deslocando Derek Temple para o comando do ataque, Harry Catterick ousou arriscar, optando por Mike Trebilcock.


O time do Everton que Harry Catterick (sentado ao centro) escalou para a final.
O time do Everton que Harry Catterick (sentado ao centro) escalou para a final.

Assim, a final da FA Cup em Wembley, na época o jogo mais cercado de expectativas do futebol inglês, aquele que o país inteiro parava para assistir, seria apenas a nona partida pelo Everton do atacante de 22 anos que sequer era mencionado no programa (a revista oficial) da final e que há cerca de cinco meses ainda estava atuando na segunda divisão por um clube modesto de uma região esquecida da Inglaterra e que jamais estivera na elite. Isso tudo dava uma ideia do tamanho do risco representado por aquela aposta de Catterick.


O jogo ainda nem tinha uma "cara" definida quando o Sheffield Wednesday abriu o placar logo aos quatro minutos num chute de McCalliog de fora da área que desviou no calcanhar de Wilson e traiu o goleiro West. Ainda na primeira metade da etapa inicial, o Everton teve dois lances envolvendo Alex Young negados pelo árbitro Jack Taylor. No primeiro, aos 15 minutos, o escocês emendou às redes uma bola escorada de cabeça, mas o gol foi anulado por impedimento milimétrico. Três minutos depois, os Toffees pediram pênalti quando o camisa 9 recebeu de Trebilcock e caiu na área ao tentar driblar o goleiro Springett, mas o juiz – que apitaria a final da Copa do Mundo de 1974 – mandou o lance seguir.


O Sheffield Wednesday teve boa chance para ampliar aos 21, mas McCalliog viu seu chute ser travado após instantes de pânico na área do Everton. Outra ocasião veio aos 39 num cochilo incrível de Tommy Wright, que recuou errado, e a bola chegou aos pés de Ford, mas o chute saiu muito ruim e atravessado, sem levar perigo. Ao fim do primeiro tempo, a tônica dos 45 minutos iniciais foi o Everton com mais iniciativa, até em vista de ter saído atrás no placar muito cedo, mas sempre esbarrando na defesa muito bem posicionada e com grande senso de cobertura do Sheffield Wednesday, que, por outro lado, exibia certa calma que beirava o desleixo no ataque, com alguns erros bobos de passe e perdas de posse.


O segundo tempo começou com o Everton enfim conseguindo testar Ron Springett: Ray Wilson bateu curto uma falta entregando para Temple, que gingou na frente do marcador e levantou para a área. Alex Young ganhou a disputa pelo alto e já girou finalizando para defesa espetacular do goleiro do Sheffield Wednesday. Aos 11, a equipe de Yorkshire respondeu com McCalliog pegando rebote da defesa, batendo de fora da área e outra vez contando com desvio na zaga, mas desta vez, para a sorte do Everton, a bola foi para fora.


Um minuto depois, entretanto, o Wednesday ampliaria: o Everton saía jogando até que Alex Young perdeu a bola na altura do círculo central. Fantham disparou com ela até a entrada da área e, assim que a defesa dos Toffees se abriu, e ele soltou um petardo que Gordon West não conseguiu segurar. O rebote sobrou para David Ford tocar rasteiro para as redes. Naquele momento, a torcida do Sheffield Wednesday vibrava e cantava a plenos pulmões, e o Everton parecia liquidado. Mas diz a sabedoria do futebol que 2 a 0 é um placar perigoso.


A VIRADA MEMORÁVEL


Cerca de um minuto e meio depois, os Toffees conseguiram diminuir. Ultrapassando a linha do meio-campo, Harris recebeu passe de letra de Gabriel e fez o lançamento para Temple no lado esquerdo da área. O ponta escorou de cabeça, e Trebilcock, vindo na corrida, encheu o pé, recolocando o time de Merseyside no jogo. Animado pelo gol e empurrado por sua torcida presente a Wembley, o Everton foi para cima e teve uma obstrução em Alex Scott marcada do lado direito do ataque. O próprio camisa 7 cobrou levantando para a área, a zaga do Sheffield Wednesday cortou de cabeça, mas a bola sobrou para Trebilcock, da meia-lua, novamente encher o pé. O chute entrou no canto esquerdo de Springett, bem perto da trave. Sete minutos após o Wednesday abrir 2 a 0, o placar já estava empatado.



Na euforia causada pelo inimaginável empate relâmpago, um torcedor do Everton chamado Eddie Cavanagh invadiu o gramado de Wembley, abraçou Trebilcock e depois correu quase a extensão total do campo tentando fugir da polícia. O primeiro guarda só conseguiu arrancar seu paletó, mas o segundo, num tackle digno de atleta de rúgbi, jogou Cavanagh ao chão. De braços abertos, camisa social, gravata e suspensórios, ainda em êxtase, o torcedor nem se importou de ser dominado e retirado pelos oficiais, ainda que jogadores do Everton tenham ido até os agentes para pedir que não utilizassem de força contra ele.


Não se sabe, porém, se Cavanagh conseguiu voltar para assistir ao gol da virada do Everton aos 28 minutos. Após recolher um ataque falho do Wednesday, West entregou a bola com as mãos a Colin Harvey no bico da área, pelo lado direito da defesa dos Toffees. O camisa 10 então tentou um lançamento, que, inicialmente, o experiente Gerry Young pareceu ter interceptado. Porém, a bola escapou de seu controle e, como um raio, surgiu Derek Temple para aproveitar a falha, arrancar em direção à área do Wednesday e bater na saída de Springett para marcar o terceiro gol. Estirado no gramado, Young lamentava seu erro fatal.


O gol da virada foi a senha para que outro torcedor invadisse o campo, driblando uma boa meia dúzia de policiais antes de ser finalmente capturado. Naquela altura, o controle do jogo já era todo do Everton, que quase marcou o quarto gol aos 31: Trebilcock, com fôlego inesgotável, desarmou Gerry Young na saída de bola, e a jogada sobrou para Alex Young na direita. O escocês fez o passe de volta, mas Springett conseguiu salvar com o pé esquerdo diante de Trebilcock, evitando o hat-trick do camisa 8. O lance era o retrato de um Sheffield Wednesday já abatido física e psicologicamente, sem pernas para buscar o empate.


Mesmo assim, o time de Yorkshire ainda tentou se lançar à frente por meio de bolas alçadas para a área e teria duas boas chances nos minutos finais: aos 41, num bate-e-rebate na área que terminaria numa finalização de Ford para fora, e aos 44, num cruzamento do lateral Wilf Smith que West só espalmou, mas Fantham cabeceou por cima no rebote. Ao apito final de Jack Taylor, os jogadores do Sheffield Wednesday caíam no gramado extenuados, enquanto os do Everton festejavam a conquista numa alegria incondicional. Tinham seus motivos.


O HERÓI QUE FOI UM COMETA


Dois personagens, especialmente: o técnico Harry Catterick dava a volta por cima depois da séria crise de janeiro, levando os Toffees a mais uma conquista nacional, desta vez da copa, e, como na liga em 1963, encerrando um jejum que vinha desde antes da Segunda Guerra. E sua aposta se provara certeira: Mike Trebilcock era outro destaque, cumprindo exibição de almanaque. De camisa para fora do calção e meiões arriados, o número 8 foi um verdadeiro dínamo em campo, correndo por todos os lados, apresentando-se sempre para as jogadas, apertando a defesa adversária e arriscando a finalização assim que vislumbrava a chance, o que aconteceu nos dois gols fundamentais que marcou para o Everton e que o eternizaram.


O herói da final Mike Trebilcock (à esquerda) bebe champanhe na taça após o jogo.
O herói da final Mike Trebilcock (à esquerda) bebe champanhe na taça após o jogo.

Encerrada a partida, os jogadores subiram as escadas até as tribunas de Wembley para que a representante da Família Real britânica, a Princesa Margaret, entregasse a taça ao capitão Brian Labone e para que os 11 campeões recebessem suas medalhas. Depois foi a vez da volta olímpica pelo gramado, com o caneco passando de mão em mão. Mike Trebilcock, o herói improvável, era um dos mais sorridentes. Curiosamente, ele teria vida curta no clube: na temporada seguinte, 1966-67, ele faria apenas quatro partidas pelo Everton, todas entre agosto e setembro de 1966. E após ausência de mais de um ano, voltaria em janeiro de 1968 para fazer seus dois últimos jogos antes de ser vendido ao Portsmouth ainda naquele mês.


No Pompey, então na segunda divisão, o atacante se firmaria como titular, atuando por mais de quatro anos, antes de sair para o Torquay, da quarta divisão, em julho de 1972. Daí em diante sua carreira seria cada vez mais discreta: a passagem rápida, por empréstimo, pelo Yeovil Town, da non-league, foi seguida pela saída em definitivo para outra equipe de fora da liga, o Weymouth, em junho de 1973. No começo do ano seguinte, ele migraria para a Austrália para defender o Western Suburbs, de Sydney, pendurando as chuteiras em 1976.


Em Goodison Park, Trebilcock permaneceu por pouco mais de dois anos, somando apenas 15 partidas disputadas e cinco gols marcados. Os dois que marcou naquela tarde de maio de 1966, no entanto, foram suficientes para colocá-lo na história do Everton, da FA Cup, de Wembley e do futebol inglês. Tudo isso diante dos olhos de Lennon e McCartney.


Abaixo, a multidão nas ruas de Liverpool acompanha o desfile dos campeões.



 
 
 

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