FA Cup de 1946: a volta do futebol num país sob os escombros da guerra
- Emmanuel do Valle

- 27 de abr.
- 21 min de leitura

Em 27 de abril de 1946, há exatos 80 anos, e diante de um estádio de Wembley recebendo cerca de 98 mil torcedores, o Derby County derrotava o Charlton por 4 a 1 na prorrogação e conquistava a FA Cup, na primeira edição do torneio desde a paralisação das competições oficiais no futebol inglês em razão da entrada do Reino Unido na Segunda Guerra Mundial. Foi uma ocasião repleta de simbolismo na qual, em meio às severas medidas de austeridade impostas à população após o conflito, o país parou para respirar ares de normalidade há muito não exalados e se reconectar consigo mesmo para poder, a partir dali, reconstruir-se.
O CONTEXTO DURANTE O CONFLITO
A temporada 1939-40 do futebol inglês durou, como já lembramos neste texto, apenas oito dias ou três rodadas da liga, além de alguns jogos da fase extra-preliminar da FA Cup. Com a invasão da Polônia pelas tropas nazistas e a declaração de guerra à Alemanha feita pelo primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain em 3 de setembro de 1939, uma série de medidas de emergência foram decretadas. Uma delas proibia a aglomeração de multidões, o que, por tabela, interrompia todas as atividades esportivas no país, incluindo o futebol.
Em reunião conjunta de urgência, a Football Association (FA) e a Football League decidiram suspender não apenas as competições como também os contratos dos jogadores. A bola, porém, não deixou de rolar, mas o jogo na Inglaterra se transformaria num simulacro, numa realidade paralela. O campeonato nacional interrompido foi substituído por uma miríade de ligas não-oficiais regionalizadas (de modo a facilitar os deslocamentos), nas quais não havia acesso nem descenso. O público nos jogos também seria restrito por motivos de segurança.
Dentro e fora de campo, clubes e atletas viveram histórias entre o comovente e o insólito. Com o contingente das Forças Armadas britânicas formado basicamente por homens na faixa dos 20 aos 30 anos, inúmeros jogadores foram recrutados, servindo dentro ou fora do país. Diante disso, não foram poucos os clubes que tiveram de suspender temporariamente suas atividades por terem tido seu elenco inteiro recrutado. Por outro lado, vários jogadores que serviam dentro das ilhas britânicas foram atuar como convidados, sob permissão das entidades oficiais do futebol, por clubes próximos do local onde estavam designados.
Sem contrato, os jogadores atuavam sem receber salário, apenas uma pequena quantia (30 shillings, o equivalente a £1,50) por jogo. Para conseguir dinheiro, não raro acontecia de um atleta entrar em campo até duas vezes no mesmo dia por clubes diferentes. Diante disso, a formação das equipes se transformara em tamanha miscelânea que proporcionava casos curiosos. O Notts County chegou a utilizar 132 jogadores em uma única temporada. E por vezes, acontecia de um time escalar lado a lado para uma partida jogadores nacionalmente célebres e... torcedores, que iam ao estádio levando chuteiras, à espera de uma chance.
Foi o caso, por exemplo, do Brighton numa visita ao Norwich na véspera do Natal de 1940. Seu goleiro chegou atrasado após pegar carona num caminhão do corpo de bombeiros, e metade do time simplesmente não apareceu. O jeito foi completar a equipe com reservas do adversário (!) e torcedores locais que atenderam ao pedido feito pelos funcionários do próprio Norwich para que vestissem o uniforme azul dos visitantes e calçassem chuteiras a fim de que a partida pudesse ser realizada. Os Canários acabaram vencendo por 18 a 0 – placar que, por motivos óbvios, não é contabilizado em estatísticas oficiais dos dois clubes.
Quando o futebol voltou, o Reino Unido estava em destroços, tentando se reconstruir. Vários estádios haviam sido bombardeados nos ataques da Luftwaffe, a aviação de guerra alemã, ou requisitados pelo governo local para, por exemplo, estocar mantimentos. Afinal, eram tempos de racionamento: o conflito direcionara a indústria britânica para a fabricação de munição e armamentos, em vez de alimentos ou bens de consumo. A infraestrutura de transportes também fora atingida e estava bastante reduzida, dificultando as viagens entre cidades mais distantes. Por fim, quase uma centena de jogadores morreram nos combates, e muitos outros sofreram ferimentos que os impossibilitaram de continuar jogando.

Por isso, o retorno da FA Cup se tornou tão importante: trazia ao povo das cidades não só a sensação de volta à normalidade, como o sentimento comunitário de pertencimento, crucial em tempos de reconstrução. Pela única vez na história, o torneio foi disputado em jogos de ida e volta, da primeira fase "proper" (ou seja, após as etapas preliminares) até as quartas de final, visando estender a todos os clubes a possibilidade de ter ao menos um jogo em casa. Além disso, com a liga ainda disputada em caráter não-oficial naquela temporada (e dividida em dois grupos, norte e sul), o interesse do público pela copa cresceu ainda mais.
A preservação de seu troféu, aliás, foi um pequeno milagre. Quando o conflito começou, ele esteve sob a guarda de Jack Tinn, técnico do Portsmouth, último campeão da competição antes da paralisação do futebol. Primeiro, Tinn havia colocado a taça no cofre de um banco, mas, temendo os ataques aéreos alemães, numa noite ele a pegou e levou para sua casa, guardando-a debaixo das escadas. Mais que providencial, foi profético: na manhã seguinte, o banco seria alvejado pela Luftwaffe. Tempos depois, o troféu foi levado para a delegacia de polícia de Havant, localidade próxima a Portsmouth, onde ficaria até fevereiro de 1946.
A BOLA ENFIM ROLOU
A competição iniciou contando com 212 equipes amadoras e semiamadoras em suas etapas preliminares e qualificatórias para as chamadas fases “proper”, nas quais entravam enfim os clubes da Football League. Curiosamente, entre os times que começavam a disputa ainda nas etapas qualificatórias, marcadas por grandes goleadas, estavam dois futuros campeões da FA Cup: o Wimbledon (admitido na Football League em 1977 e vencedor da copa em 1988, antes de se transformar no Milton Keynes Dons em 2004) e o Wigan (que entraria para a Football League um ano depois do Wimbledon e levantaria o tradicional caneco em 2013).
Mas de todas estas equipes da chamada non-league, apenas uma alcançaria a terceira fase "proper": o Lovell's Athletic, time dos funcionários de uma fábrica de caramelos sediada em Newport, no País de Gales. Os Toffeemen, como eram chamados, entraram na competição na última fase qualificatória e, já nas fases "proper", eliminaram o Bournemouth – que então se chamava Bournemouth & Boscombe Athletic e disputava a terceira divisão (sul) antes da paralisação – com um tranquilo 6 a 4 no placar agregado, antes de superarem outra equipe de fora da Football League, o Bath City, por um ainda mais fácil 7 a 3 na soma dos placares.
O doce sonho dos Toffeemen, porém, acabaria na fase seguinte diante de um adversário de peso bem maior, o Wolverhampton. Vivendo fase de transição entre duas grandes dinastias de técnicos de sua história (a do Major Frank Buckley, que ficou no cargo entre 1927 e 1944, e a de Stan Cullis, ex-jogador do clube, que dirigiu o time entre 1948 e 1964), os Wolves não tiveram problemas para vencer mesmo assim, aplicando um 4 a 2 fora de casa no jogo de ida e, quatro dias depois, arrasando a equipe galesa com um sonoro 8 a 1 no Molineux.
Aquela terceira fase "proper", na qual entravam os clubes da primeira e segunda divisões, registrou algumas surpresas. O Portsmouth, detentor do título, caiu para o Birmingham (que havia sido rebaixado para a segunda divisão na temporada 1938-39, a última completa antes da Guerra) perdendo por 1 a 0 na casa do adversário e não saindo do empate sem gols em casa. Outro choque foi a eliminação do Arsenal, o grande time da década de 1930, após ser goleado por 6 a 0 pelo West Ham, da segundona, e vencer só por 1 a 0 na partida de volta.
Em outro confronto londrino, o Brentford superou o Tottenham vencendo em casa por 2 a 0 após empate em 2 a 2 em White Hart Lane. Quem também acabou ficando pelo caminho foi o Everton, último campeão da liga antes da paralisação, eliminado em duelo de peso contra o Preston North End, vencedor da penúltima edição da copa antes da Guerra, em 1937-38. Já a série com mais gols aconteceu entre Leeds e Middlesbrough: em Elland Road, os dois times da primeira divisão empataram em 4 a 4. Na volta, o Boro goleou por 7 a 2 e avançou.

Na quarta fase, os confrontos ficaram mais equilibrados, mas algumas goleadas ainda foram vistas, sobretudo em duelos entre times de divisões diferentes. O Aston Villa (da primeira) e o Sheffield Wednesday (da segunda), por exemplo, alcançaram os dois dígitos em seus placares agregados: os Villains demoliram o Millwall, da segunda divisão, por 13 a 3, com direito a um 9 a 1 no jogo de volta em casa. Já os Owls dividiram quase salomonicamente seus gols contra o modesto York City, da terceira divisão (norte), aplicando 5 a 1 e 6 a 1.
Mas ser vítima de placar elástico não era exclusividade das equipes de divisões inferiores: o Liverpool foi atropelado pelo Bolton por 5 a 0 no jogo de ida do duelo entre duas equipes da elite. A vitória por 2 a 0 na volta de nada adiantou aos Reds. A reviravolta mais chocante, porém, ficou por conta do Manchester City diante do Bradford Park Avenue, seu colega de segunda divisão: na casa do adversário, os Citizens obtiveram uma vitória folgada por 3 a 1, mas na volta, em pleno Maine Road, sofreram uma incrível goleada de 8 a 2. E, com a queda do Manchester United para o Preston, o futebol mancuniano se despediu do torneio ali.
Na quinta fase, equivalente às oitavas de final, o predomínio já era das equipes da primeira divisão: dez entre as 16 classificadas eram da elite – tomando como referência seus status no momento em que o futebol havia sido interrompido. A segunda divisão colocou quatro, e a terceira, mais duas, ambas do grupo sul. Nesta etapa, além de placares bem mais ajustados, só houve uma surpresa: o Birmingham voltaria a eliminar um time forte da primeira divisão, o Sunderland, perdendo no Roker Park por 1 a 0, mas revertendo em casa com um 3 a 1.
Já na sexta fase (ou quartas de final), última etapa com partidas em ida e volta, o sorteio pareou as duas únicas equipes remanescentes da segunda divisão, Bradford Park Avenue e Birmingham, que seguiu na competição, despachando o adversário com um sonoro 6 a 0 em St. Andrew's após empate em 2 a 2 na ida. Mas esta etapa – e, por extensão, a própria edição do torneio – ficaria marcada por uma das maiores tragédias em estádios da história do futebol inglês, em Burnden Park, Bolton, na tarde de 9 de março de 1946.
O DESASTRE DE BURNDEN PARK
Os primeiros anos após o fim da Segunda Guerra registraram os maiores públicos da história do futebol inglês. E, dado o estado dilapidado de muitos estádios no país, foi um pequeno milagre não ter havido número considerável de acidentes. Porém, pelo menos um caso, no jogo em que o Bolton receberia o Stoke pela partida de volta das quartas de final daquela FA Cup, terminou em desastre de proporções nunca vistas até ali. A superlotação, as precárias condições estruturais e a mal planejada e ineficiente gestão das multidões levaram 33 torcedores à morte e deixaram cerca de 400 outros feridos em Burnden Park.
O antigo estádio do Bolton tinha capacidade estimada em cerca de 65 mil torcedores, mas naquele momento não dispunha de todas as suas arquibancadas liberadas, já que uma delas havia sido requisitada pelo Ministério do Abastecimento para servir de depósito de mantimentos em tempos de racionamento. A maior parte do efetivo policial naquele dia, aliás, tomava conta daquele setor. Contudo, aqueles eram tempos em que a população estava ávida por futebol, pelas razões já enumeradas: a volta à normalidade, o reencontro da comunidade ou pura e simplesmente a diversão, o passatempo do sábado.
O Bolton havia vencido o jogo de ida fora de casa por 2 a 0, e a possibilidade de confirmar a passagem à semifinal – etapa em que os jogos voltariam a ser realizados em campo neutro – somada à chance de assistir a nomes célebres como Stanley Matthews na equipe adversária, só aumentaram o interesse do público. E quase 90 mil pessoas se aglomeraram no entorno do estádio. Na época, a venda de ingressos era feita só nas bilheterias, no dia da partida: era pagar e passar pelas catracas. E todas elas ficavam na única entrada do estádio.

Com filas gigantescas se estendendo pelas imediações e um grande empurra-empurra se formando, as catracas foram fechadas às 14h40 (20 minutos antes do início do jogo), quando os organizadores entenderam que a capacidade disponível já havia sido preenchida. O que eles não contavam, no entanto, era que milhares de torcedores ainda conseguiriam acessar o estádio atravessando a linha ferroviária adjacente e escalando os muros do setor conhecido como Railway End, além de outros tantos que entraram simplesmente pulando as catracas ou mesmo arrombando um portão de saída, que estava trancado a cadeado.
De dentro do estádio, quem observava de outros setores percebia que o público estava distribuído de maneira desigual e que havia muito mais gente na Railway End do que o local comportava, sobretudo em um dos cantos do setor, por onde entravam os torcedores que haviam invadido vindos da linha de trem. Era impossível se mexer, mesmo depois que as crianças presentes naquele setor foram retiradas (pelo alto, sendo passadas por sobre as cabeças do público) e colocadas na pista de atletismo que havia ao redor do gramado.
Logo após o início da partida, a tragédia anunciada finalmente aconteceu: duas barreiras de metal perto de uma das bandeirinhas de escanteio cederam pela pressão insustentável, e os torcedores foram empurrados para frente, caindo no chão uns sobre os outros como uma fileira de peças de dominó. Vendo o estado de agonia do público naquelas condições, os policiais derrubaram a cerca de madeira que separava o setor da pista. Por volta dos 12 minutos de jogo, um oficial entrou em campo e foi até o árbitro comunicar o ocorrido.
George Dutton, juiz da partida, avisou então aos dois capitães que ela seria interrompida. A possibilidade de encerrar o jogo ali, no entanto, foi descartada, já que isso poderia levar a uma confusão muito maior naquele momento. A partida foi paralisada por cerca de meia hora, enquanto os feridos eram resgatados e os mortos levados para a lateral do campo, sendo cobertos com casacos. Uma linha lateral mais estreita foi remarcada com serragem, e o jogo continuou sem intervalo: ao fim do primeiro tempo os times só trocaram de lado, e a bola voltou a rolar. Naquele anticlímax, o 0 a 0 foi apenas um componente da tarde triste.
OS FINALISTAS
Nas semifinais, o Bolton acabaria eliminado pelo Charlton com derrota por 2 a 0 no campo neutro do Villa Park no dia 23 de março. No outro confronto, disputado na mesma data, o Birmingham, único remanescente da segunda divisão, pegou o Derby County e conseguiu levar a definição para o replay após empate em 1 a 1 em Hillsborough (Sheffield). Porém, no desempate dali a quatro dias em Maine Road (Manchester), prevaleceu a maior categoria do Derby, embora somente na prorrogação, com um 4 a 0 diante de mais de 80 mil torcedores.
A final entre Derby e Charlton não só apontaria um campeão inédito do torneio como seria o primeiro título oficial do vencedor num campeonato de elite do futebol inglês. Os Rams tinham mais tradição: integravam a Football League praticamente desde a fundação desta e já haviam alcançado a final da copa em três ocasiões, todas na virada do século, perdendo para o Nottingham Forest em 1898, o Sheffield United no ano seguinte e o Bury em 1903. Além disso, já haviam sido vice-campeões da liga por três vezes, terceiros em outras duas e vinham disputando a divisão de elite continuamente desde 1926, ano do último acesso.
Os Addicks, por sua vez, tinham histórico bem mais recente, colocando-se como um clube emergente. Admitidos na Football League apenas em 1921, os londrinos viveram ascensão meteórica nos anos 1930: na temporada 1934-35, estavam na terceira divisão (sul). Dois anos depois, estreavam na elite com um surpreendente vice-campeonato, seguido por um quarto e um terceiro lugares nas duas últimas edições antes da paralisação. Já na FA Cup, aquela seria sua primeira final – embora durante a Segunda Guerra eles já tivessem decidido por duas vezes em Wembley a chamada Football League War Cup, competição não-oficial.

Essa ascensão do Charlton era obra dos irmãos Stanley e Albert Gliksten, ricos comerciantes de madeira e, respectivamente, presidente e vice-presidente do clube, e do técnico Jimmy Seed, ex-meia de Tottenham e Sheffield Wednesday com passagem pela seleção inglesa na primeira metade da década de 1920. Seed havia servido no exército britânico na Primeira Guerra Mundial e sobrevivera um ataque aéreo alemão com gás mostarda na Bélgica. Mais tarde, ao pendurar as chuteiras, em 1931, começou como técnico no Clapton Orient (atual Leyton Orient), clube do qual os irmãos Gliksten eram conselheiros antes de toparem a empreitada de resgatar os Addicks, então quase abandonados e mergulhados em dívidas.
Aquele Charlton finalista da copa na primeira temporada após o fim da guerra ainda reunia vários remanescentes do elenco vice-campeão inglês em 1937, como o lendário goleiro Sam Bartram (considerado o maior da história do clube e um dos melhores do futebol inglês em seu tempo), o zagueiro Jack Oakes, o lateral-esquerdo Jack Shreeve, o médio-direito Bert Turner (lateral de origem) e os meias Albert "Sailor" Brown e Don Welsh, capitão do time. O restante do time titular havia chegado ao clube durante a guerra – como o lateral-direito Harold Phipps – ou mesmo naquela temporada, casos do médio-esquerdo Bert Johnson, do ponta-direita Les Fell e do ponta-esquerda Chris Duffy. E havia a presença do centroavante Arthur Turner, um oficial da Royal Air Force britânica que jogava futebol como amador.
A campanha rumo a Wembley começou num duelo londrino contra o Fulham, da segunda divisão (com efeito, seria o único de fora da elite no caminho do Charlton). Curiosamente, foi o confronto mais apertado: o time venceu em casa por 3 a 1 e perdeu fora por 2 a 1, mas avançou pelo placar agregado. Já na etapa seguinte, o adversário era bem mais pesado: o Wolverhampton. Porém, os Addicks se impuseram com um categórico 5 a 2 em casa no jogo de ida. Na volta, no Molineux, o empate em 1 a 1 bastou para garantir a vaga nas oitavas de final. De novo medindo forças com um clube tradicional da elite, o Preston North End, o Charlton arrancou outro 1 a 1 fora antes de golear por impiedosos 6 a 0 em Londres.
Nas quartas, outro duelo da capital inglesa aguardava pelos Addicks. Porém, o Brentford foi despachado com facilidade em duas vitórias: em seu estádio de The Valley (que sofrera com bombardeios durante a guerra), o Charlton goleou por 6 a 3, antes de confirmar a passagem à próxima etapa com um 3 a 1 em Craven Cottage. Na semifinal, no campo neutro do Villa Park, dois gols de Chris Duffy e inúmeras defesas sensacionais de Sam Bartram garantiram a vitória por 2 a 0 sobre o Bolton (um vídeo sem som feito pelo British Pathé com lances da partida pode ser assistido aqui) e a primeira classificação à final da FA Cup do clube.
OS ASTROS
O Derby tinha um técnico menos badalado: Stuart McMillan, ex-ponteiro de carreira discreta como jogador, teria no clube seu único trabalho como treinador, entre 1946 e 1953. Mas seu time contava com pelo menos duas grandes celebridades do futebol inglês: os meias (ou atacantes interiores) Raich Carter e Peter Doherty. Carter surgiu no Sunderland e foi capitão do time vencedor da liga em 1936 e da copa em 1937. Defendeu a seleção da Inglaterra de 1934 a 1937 e, na mesma época, virou estátua no Museu de Cera de Madame Tussauds. Durante a guerra, juntou-se ao Corpo de Bombeiros e, mais tarde, serviu como instrutor de treinamento físico na Royal Air Force. Hoje está no Hall da Fama do futebol inglês.
O norte-irlandês Doherty, por sua vez, chegara à Inglaterra em 1933 trazido pelo Blackpool, após passagens por Coleraine e Glentoran. Mas explodiria mesmo ao levar o Manchester City ao seu primeiro título da liga em 1936-37, sagrando-se inclusive o artilheiro do time na campanha. Na Guerra, serviu na RAF, mas seguiu como nome requisitado no futebol, defendendo mais de uma dezena de clubes como convidado, entre eles Manchester United, Liverpool e o próprio Derby County, para onde se transferiu em definitivo após o fim do conflito. Após pendurar as chuteiras, seria o técnico responsável por levar a Irlanda do Norte à Copa do Mundo de 1958, superando Itália e Portugal no grupo das Eliminatórias.
Porém, o Derby chegava à final com algumas baixas por lesão. A começar pelo gol, em que tanto o titular Frank Boulton, ex-Arsenal, quanto seu reserva Bill Townsend se lesionaram ao longo da campanha, forçando a contração do veterano Vic Woodley, 36 anos, ex-Chelsea e seleção inglesa, trazido do Bath City quando já se aproximava do fim da carreira. Na defesa, o desfalque era o lateral-esquerdo Jackie Parr, que chegara ao clube como amador em dezembro de 1937, mas só estreara naquela campanha da copa. Entretanto, uma fratura no braço o tiraria da final, abrindo espaço para Jack Howe, uma antiga revelação do Hartlepool trazida em 1936 e que estava servindo na Índia antes de voltar ao time nas semifinais.

Uma lesão no joelho também tirou do time na reta final o jogador mais veterano do elenco: o ponta-direita Sammy Crooks, de 38 anos, no Derby desde 1927. O atacante, que fizera 27 jogos pela Inglaterra entre 1930 e 1936, acabou substituído pelo novato Reg Harrison, 22 anos, que se profissionalizara no clube em 1944 enquanto servia no Exército. Durante a guerra, atuou como convidado por outros quatro clubes – entre eles, por ironia, o próprio Charlton, adversário na decisão. A ponta-esquerda também mudou de dono ao longo da campanha: o escocês Angus Morrison, 22 anos, extrema rápido e forte trazido do Ross County em outubro de 1944 trocado por uma caixa de charutos, deu lugar ao veterano Dally Duncan, 32 anos, também escocês, e no Derby desde 1932, quando chegou do Hull.
Com Dally Duncan – que variou entre a meia e a ponta-esquerda ao longo da campanha – fixando-se com a camisa 11, o Derby poderia escalar seu trio de centro de ataque o qual, ao fim daquela caminhada, seria responsável por marcar 33 dos 38 gols do time: os já citados Raich Carter e Peter Doherty nas meias direita e esquerda, respectivamente, municiando o centroavante Jackie Stamps, goleador oportunista pescado no New Brighton em janeiro de 1939. Stamps era outro com histórias da guerra para contar: servindo na França, vivenciara a evacuação de Dunquerque, de onde saíra ferido. E, mais tarde, jogando por uma equipe do Exército, sofreria uma ruptura de ligamentos que poderia ter abreviado sua carreira. Mas se recuperou e ainda defendeu o Southampton como convidado antes de retornar ao Derby.
Quem chegou de fato a encerrar (voluntariamente) a carreira durante a guerra, mas acabaria voltando atrás, foi o zagueiro Leon Leuty. Aos 17 anos, ele dava expediente como aprendiz de ferramenteiro na oficina de engenharia da Rolls Royce e, nos fins de semana, atuava por equipes amadoras. E foi assim, como amador, que ele chegou ao Derby em 1938. Mas uma cirurgia no joelho, já no período da guerra, afastou-o dos gramados. Quando se recuperou, o Derby havia suspendido as atividades após ter o estádio de Baseball Ground requisitado pelo Exército britânico. E Leuty foi atuar no time da fábrica da Rolls Royce, até receber um convite para jogar no Notts County, que reuniu um punhado de grandes nomes no período.
Até que veio uma nova lesão no joelho, fazendo com que Leuty decidisse se retirar de vez do futebol para se dedicar exclusivamente ao emprego na Rolls Royce, como sempre havia sido sua intenção. Num dia, porém, ele reconsiderou a decisão, após um convite do técnico Frank Womack, e voltou a defender o Notts County. Foi quando o Derby reapareceu em seu caminho com uma proposta de contrato como atleta profissional, o primeiro de sua carreira, assinado aos 24 anos, em maio de 1945. E, quase um ano depois, na decisão da FA Cup de 1946, lá estava ele formando a defesa com Jack Nicholas, lateral-direito e capitão do time (o qual chegara a dirigir durante a guerra), e o já citado Jack Howe, substituto de Jackie Parr.
Por fim, resta falar da linha média, com a dupla formada por Jim Bullions pela direita e Chick Musson pela esquerda. Volante estilo "ladrão de bola", Bullions era, aos 22 anos de idade, o mais jovem do time. Chegou ao clube em outubro de 1944 e estreou oficialmente pelo time naquela campanha, da qual foi um dos três únicos jogadores a participarem integralmente, ao lado de Jack Nicholas e Raich Carter. Musson, por sua vez, chegou ao clube com 15 anos, em 1936 e estreou no time de cima em 1942. Além de futebol, jogava críquete e rúgbi.
A CAMINHO DE WEMBLEY
O Derby chegou à final invicto, somando oito vitórias e dois empates em seus dez jogos até Wembley - e esmagando alguns adversários no caminho. O primeiro foi o Luton, na terceira fase: uma goleada de 6 a 0 em Kenilworth Road, com direito a quatro gols de Jackie Stamps, praticamente já garantiu a passagem para a etapa seguinte, confirmada com um protocolar 3 a 0 em casa no jogo de volta. O próximo oponente foi o West Bromwich Albion, vencido no Baseball Ground por um magro 1 a 0, gol de Peter Doherty, resultado que deixou certa apreensão para a partida de volta. Mas não era necessário: Raich Carter abriu a contagem, e Stamps (de pênalti) e Reg Harrison completaram a vitória por 3 a 1 nos Hawthorns.
Nas oitavas de final, o clube voltou a ter mais facilidade. O Brighton, da terceira divisão (sul), não ofereceu resistência e foi derrotado por 4 a 1 no Goldstone Ground, com Raich Carter e Peter Doherty dividindo entre si os gols dos Rams, e por 6 a 0 no Baseball Ground, com hat-trick de Carter, dois de Doherty e um de Sammy Crooks perfazendo um placar agregado de 10 a 1. Já nas quartas, diante do Aston Villa, viria o jogo mais difícil da campanha: no Villa Park, o Derby esteve por três vezes atrás no placar, mas dois gols nos cinco minutos finais decretaram a vitória de virada por 4 a 3 num jogo alucinante: primeiro, Duncan cruzou para a cabeçada de Doherty aos 40 da etapa final. E, três minutos depois, Sammy Crooks apareceu desmarcado no meio da defesa do Villa para chutar colocado e definir o importante triunfo.

Herói do jogo de ida, Crooks teve de sair de campo lesionado com apenas dez minutos na partida de volta no Baseball Ground. Sem poder ser substituído, já que não era permitido na época, deixou o Derby com um jogador a menos, e o Aston Villa abriu o placar com o meia-direita Broome. Pouco antes do intervalo, porém, os Rams igualaram com Raich Carter, após cobrança de falta de Dally Duncan. E no início do segundo tempo, foi a vez do Villa perder um jogador por lesão, o médio-direito Parkes. Assim, a etapa final foi toda do Derby, que poderia até ter vencido, mas bastou-lhe o empate em 1 a 1 para avançar às semifinais.
E o adversário seria curiosamente o arquirrival do Aston Villa, o Birmingham City. O jogo no campo neutro de Hillsborough em 23 de março teve o placar aberto pelo Derby logo aos seis minutos com Raich Carter. Mas os Rams desperdiçariam inúmeras chances e sofreriam o empate com Mulraney aos 14 minutos da etapa final, forçando o replay dali a quatro dias em Maine Road. Nele, o Birmingham ainda resistiu por todo o tempo normal, mas desmoronou na prorrogação: o Derby goleou por 4 a 0, com Doherty e Stamps marcando dois cada.
O intervalo de um mês entre a confirmação dos finalistas e a decisão em Wembley levou a uma insana corrida por ingressos. Embora o estádio comportasse cerca de 100 mil pessoas, a cota de ingressos destinada pela Football Association para ser vendida pelos clubes foi de apenas 12 mil para cada um. Estes fizeram o possível para que a distribuição aos torcedores fosse feita da melhor forma dentro das condições da época, com estruturas de transportes e correios ainda se recuperando da guerra. Com a demanda várias vezes maior que a oferta, os interessados nos bilhetes recorriam a tudo: Cyril Annable, secretário do Derby, chegou a receber desde tapetes até peças inteiras de pernil – itens de luxo em tempos de escassez – como suborno em troca de ingressos, mas devolveu os "presentes" um por um.
Os ingressos quase trouxeram também outro tipo de problema ao Derby: ao saberem que suas esposas haviam sido relegadas a arquibancadas sem cobertura em Wembley, enquanto as dos dirigentes ficariam em lugares mais caros e cobertos, os jogadores, liderados por Raich Carter, protestaram e ameaçaram não entrar em campo na final caso não houvesse equiparação. O caso só foi resolvido instantes antes da partida. Quem teria lugar cativo nas tribunas seria a Família Real britânica: o rei George VI (que, como mandava a tradição, pisou o gramado para cumprimentar, um por um, os jogadores perfilados), a rainha Elizabeth I e a princesa Elizabeth (que ascenderia ao trono em 1952 como rainha Elizabeth II).
Além do hino nacional, "God Save The King", outro momento de forte carga emocional do pré-jogo foi quando a banda executou o hino religioso "Abide With Me", habitualmente tocado em funerais. A canção foi entoada a plenos pulmões pelo público presente como lembrança das perdas humanas e materiais enfrentadas pelo país durante a guerra. Agora, este "ritual familiar nacional" em Wembley, como escreveram Andrew Ward e John Williams no memorável livro Football Nation, era "evidência inequívoca da paz. Qualquer que fosse o resultado, seria uma comemoração de vitória para ambos os clubes de futebol".
A FINAL
Quando a bola enfim rolou, o domínio do Derby no jogo foi evidente desde o minuto inicial. Mas o público teria de esperar até os minutos finais do tempo regulamentar para ver gols. Eram 40 minutos da etapa final quando um cruzamento da esquerda do ataque dos Rams foi afastado de soco por Sam Bartram. O rebote ficou com Dally Duncan, que bateu para o gol. Bert Turner ainda tentou tirar, mas só conseguiu desviar a bola, que tomou mesmo o rumo das redes. Mas logo no minuto seguinte, o defensor do Charlton se redimiria: numa falta frontal para os Addicks perto da área do Derby, seu chute forte resvalou em Doherty na barreira e fugiu do alcance de Woodley, empatando o jogo. Como se não bastasse, aquele fim de tempo normal ainda veria a bola estourar após um chute de Stamps para o gol.
A decisão acabaria seguindo o roteiro da semifinal entre Derby e Birmingham: os oponentes dos Rams conseguiriam levar o jogo para a prorrogação, mas nela não haveria mais como fazer frente ao melhor futebol do adversário: logo aos dois minutos, Stamps arrancou pela ponta esquerda, passou por Phipps e bateu cruzado. Bartram só conseguiu fazer a defesa parcial e, no rebote, Doherty colocou de novo o Derby em vantagem. Antes do intervalo no tempo extra, Stamps ampliou após receber de Doherty. E na etapa final, o norte-irlandês novamente fez a assistência para o centroavante dar números finais à goleada: 4 a 1.

Depois do apito final veio a tradicional procissão dos jogadores subindo as escadarias que levavam do gramado à tribuna para receberem a taça e as medalhas de membros da Família Real – no caso, pelo próprio rei George VI – seguida pela volta olímpica dos campeões ao redor do campo, saudando os torcedores. Curiosamente, devido à escassez de ouro, ambos os finalistas receberam inicialmente medalhas de bronze, só meses depois trocadas pelas de ouro e prata. Mas a honra de receber o troféu ali, naquele momento, ficaria mesmo com o capitão do Derby, o lateral Jack Nicholas. Seria o único na história do clube, aliás.
O Derby nunca mais retornaria a uma final da FA Cup, embora chegasse a vencer a liga por duas vezes nos anos 1970. Já o Charlton voltaria logo no ano seguinte para erguer o caneco, também pela única vez em sua história, após bater o Burnley por 1 a 0, gol do ponta Chris Duffy, de novo na prorrogação. Mas ali, naquele instante, tudo o que se vislumbrava era um país a ser reconstruído, com todas as coisas aos poucos retomando seus lugares. Como a expectativa por uma final da taça numa tarde de sábado naquele palco monumental.
Abaixo, o cinejornal feito pelo British Pathé sobre a decisão de 1946:



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